Farias algo de modo diferente?

Estou satisfeita com o modo como (não) planeei a minha ida à Austrália e com a forma como a viagem se foi desenrolando. Mas há algo que gostava que tivesse sido diferente. Neste caso, mais precoce: a minha data de partida!
Sabendo hoje o modo como a pandemia parou o mundo, gostava de ter partido para a Austrália mais cedo. Por outro lado, se tivesse partido mais cedo, poderia ter tido de ajustar o meu percurso tendo em conta os incêndios. Não há datas de partida perfeitas!

Tentando ser optimista, vejo uma vantagem nesta interrupção da minha viagem: pretendo regressar à Austrália e sinto que vou ter uma segunda hipótese de viver a minha viagem de sonho.

Acho que, na segunda vida desta aventura, irei manter a falta de planeamento da primeira, viajando ao sabor dos dias. Mas há um ou outro aspecto que procurarei optimizar.

Arte urbana em Melbourne.

Jet lag

Demorei dias e dias a adaptar-me ao fuso horário de Western Australia. Como é habitual em mim, dormi pouco nos dias anteriores à partida. Durante a viagem, tomei um hipnótico e consegui dormir profundamente no voo entre Istambul e Singapura. Mas cometi o erro de tomar o comprimido a meio da viagem (em vez de o ter tomado no início). Não recomendo. Anda estava grogue quando aterrámos em Singapura!

Nos dias a seguir à chegada a Cottesloe, andei completamente desregulada. Quando estive na Indonésia, em Outubro, tive muita dificuldade em me adaptar ao fuso horário. E já contava com o mesmo nesta viagem.
Assim, até já tinha reservado um quarto privado para as primeiras noites. No entanto, à posteriori, pergunto-me se não teria sido melhor partilhar quarto, para me forçar a ter horários de sono normais. É que, durante a minha estadia em Cottesloe, adormecia pelas 03h00 e acordava pelas 11h00, horários que não me agradavam. Resisti sempre a voltar a tomar o hipnótico, algo que irei reconsiderar na próxima vez.

Entretanto, durante a minha estadia em Western Australia, comecei lentamente a entrar no ritmo. Ter tido de acordar cedo várias vezes, por causa das excursões, fez com que eu começasse a ter sono a horas decentes, o que foi óptimo.

Valeu a pena acordar pelas 06h00 para poder surfar a Wave Rock ao contrário!

Mas, duas semanas depois de ter aterrado na Austrália, mudei de estado. E com a mudança de estado veio uma mudança de fuso horário, com adiantamento do relógio em duas horas e meia. Ficou o caldo entornado! Eu, que já me tinha habituado a adormecer pela meia-noite, só tinha sono pelas 02h30. Mais uma vez, não quis tomar o hipnótico e não consegui acertar o passo.

Depois de South Australia, segui para a Tasmânia e adiantei o relógio mais 30 minutos. Desta vez, o meu primeiro dia em Hobart começou com um free walking tour, o que me obrigou a acordar cedo e me ajudou a entrar no ritmo.

Bom dia Hobart!

Assim, aquando de futuras viagens a destinos com diferenças horárias significativas, se não me conseguir adaptar ao fuso horário, irei pegar o touro pelos cornos e usar o hipnótico que comprei.
Nota: por favor, não se auto-medique! Se sentir que necessita de um medicamento para regular o sono em viagem, consulte um médico ou farmacêutico.

Reservas

Como fui viajando à medida dos meus apetites, paguei preços elevados pelos voos internos. Não sei bem se mudaria isto, porque me agradou muito a liberdade e flexibilidade que fui tendo, mas tentarei esta mais atenta a descontos e boas oportunidades.

Convívio

No seguimento do meu texto anterior, vou tentar ser (ainda?) mais sociável na sequela desta viagem. Tenciono continuar a viajar sobretudo sozinha, mas quero interagir mais com outros viajantes.

Posto isto…

Despeço-me com amizade até ao próximo programa

Fazer um período sabático e conhecer a Austrália foram dois sonhos tornados realidade. Adorei aquele país-continente, no outro lado do mundo, tão desenvolvido, seguro e que me permitiu ter experiências tão incríveis como ver leões-marinhos, fazer festas a cangurus e assistir ao pôr-do-sol no deserto, entre tantos outros momentos inesquecíveis. Escrever neste blog ajudou-me a reavivar as memórias dessa viagem e a deixar um registo destas aventuras para a posteridade.

Entretanto, já regressei ao trabalho e tenho acompanhado com atenção a evolução da pandemia na Europa e na Austrália. Ainda não é hora de regressar. Mas essa hora há de chegar!

Por agora, tenciono aproveitar o Verão e ir sonhando com o regresso à terra dos cangurus. Voltarei a alimentar o blog quando retomar a minha viagem. Até breve!

Selfie com um canguru!

A única desilusão

Parti para a Austrália sozinha e o plano passava por me manter sozinha a maior parte do tempo. Mas, tendo em conta que que me iria cruzar com outros viajantes ao longo do caminho, pensei que poderíamos fazer alguns programas juntos.

Por exemplo, ainda em Portugal, já tinha definido que queria visitar a paradisíaca Rottnest Island, em Western Australia. Pelo que tinha lido, parecia-me melhor pernoitar uma noite na ilha, para a aproveitar ao máximo.
Tratei de pesquisar alojamento, mas era caríssimo: uma cama numa camarata num hostel, sem roupa de cama ou toalha de banho, custava 60 dólares australianos por noite, algo como 45€! O meu limite mental de preço para uma cama num dormitório de um hostel está nos 30€ por noite, cortesia de Copenhaga e Amesterdão. Mas tem de ser um hostel óptimo e bonito, o que não parecia ser o caso deste.
Reparei que, na ilha, havia uns bungalows por 120 dólares australianos por noite, com capacidade para seis pessoas. Na minha inocência, achei que seria uma boa ocasião para angariar companheiros de viagem e partilhar o alojamento.

Salmon Bay, na paradisíaca Rottnest Island.

Tal não se veio a verificar.

Com efeito, notei uma tendência de comportamento por parte das pessoas com quem me fui cruzando nos hostels ao longo das semanas: todos, novos e velhos, estavam sempre agarrados aos telemóveis! Eram raras as pessoas que permaneciam nas áreas comuns sem estar de olhos fixos num ecrã. Acresce que muitos dos hóspedes dos vários hostels por onde passei circulavam nas áreas comuns com auriculares em ambos os ouvidos, o que invalidava qualquer tentativa de aproximação.
Por outro lado, frequentemente, aconteceu-me entrar na cozinha ou na sala de refeições e, após cumprimentar os presentes, não receber qualquer resposta ou olhar de volta.

Dado este contexto e após conversar com duas pessoas “normais” no meu primeiro hostel, percebi que era exequível ir a Rottnest Island mesmo que por apenas um dia, pelo que abandonei a ideia de procurar companhia para esta deslocação.

Tive alguma dificuldade em perceber esta forma de estar e fiquei preocupada com o futuro da humanidade. Estaremos a perder a capacidade de interagir com desconhecidos?
Fiquei desapontada. Gosto de conhecer pessoas novas e, frequentemente, as pessoas que viajam são interessantes e boas conversadoras. Além disso, é sempre bom trocar dicas de viagem e sentir que se pertence a uma comunidade.

Ainda durante a minha estadia em Cottesloe, descobri, por acaso, o blog Bald Nomad, de Geoffrey Morrison, um viajante americano que também teve dificuldade em socializar durante a sua estadia em Western Australia, em 2015. Que coincidência!
Uma das explicações que ele avançava é o facto de muitos dos hóspedes dos hostels onde ficou instalado residirem no hostel. Com efeito, a Austrália permite a entrada de estrangeiros no âmbito de um visto Work and Holiday. Os detentores deste visto podem trabalhar e viajar livremente por todo o país durante a sua estadia na Austrália. Esta parece ser uma opção muito popular. E, de facto, tanto no hostel de Cottesloe como no de Fremantle, tive a impressão de que muitos dos hóspedes lá residiam. A certa altura, até sentia que estava numa residência de estudantes e não num hostel.

Grupo de amigos a assistir ao pôr-do-sol em Cottesloe.

Assim, percebi melhor o facto de não ter havido muitas oportunidades de convívio. Compreendo que quem reside num hostel há semanas ou meses já terá o seu grupo de amigos e não tenha particular interesse em interagir com os hóspedes temporários, como era o meu caso. Essas pessoas fazem vida de residente e não de turista.

Ao perceber este contexto, o meu receio pelo futuro da humanidade esbateu-se, mas não se dissipou na totalidade. Continuo a achar preocupante a dependência que tantas pessoas parecem ter em relação aos seus telemóveis.

Felizmente, nem sempre estive apenas entregue à minha companhia e fui-me cruzando com pessoas interactivas, muito simpáticas e interessantes ao longo das semanas. Porque viajar sozinho(a) não tem de implicar estar sempre só.

Incêndios na Austrália

Despedi-me em Agosto do ano passado para fazer uma pausa sabática, já com a ideia de, a certa altura, partir em viagem para a Austrália. Nos meses seguintes, fui adiando a viagem e só tomei a decisão definitiva, isto é, comprei os bilhetes de ida, no final de Dezembro.
E o que é que estava a acontecer em Dezembro e Janeiro na Austrália? Os terríveis incêndios que viriam a devastar milhões de hectares daquele lindo país.

Assim, quando comecei a divulgar que partiria em breve para a Austrália, a reacção mais frequente que recebia era algo como: “A sério? Com estes incêndios?”
Senti-me um pouco tonta por ter adiado tanto a viagem (e mal sabia eu que ainda ia ter de lidar com a pandemia causada pelo nosso amigo Coronavírus). Mas recorri às minhas memórias.

Algures no outback de Western Australia.

Em Outubro de 2015, tinha planeado visitar a Turquia pela segunda vez. Ia participar numa conferência profissional e tinha programado uma semana de férias antes da conferência, para visitar Ancara e outras localidades que ainda não conhecia. Era suposto aterrar na capital turca numa quarta-feira à noite. No fim-de-semana anterior, houve um atentado terrorista na cidade.
Naturalmente, fiquei preocupada e ponderei cancelar a visita a Ancara e até a ida à Turquia. Mas optei por, primeiro, me manter atenta aos noticiários e tentar perceber se este teria sido um ataque isolado ou algo ainda mais perigoso.

Mesquita em Konya, a interessante cidade que visitei a seguir a Ancara. Nesta fase, tirava poucas fotografias e não tenho nenhuma fotografia relevante de Ancara.

Não tendo havido mais nenhum atentado, decidi arriscar e manter o meu plano inicial. Na pior da hipóteses, se não me sentisse segura, sairia de Ancara imediatamente.
O facto de a Turquia ser um destino turístico muito popular e um país mais desenvolvido do que por vezes pensamos, deu-me alguma confiança.

Aterrei em Ancara na data prevista e senti-me sempre segura. A segurança, que nos aeroportos turcos já é habitualmente mais musculada do que nos nossos, tinha sido reforçada e até havia controlos com detectores de metais à entrada das estações de metro. Durante a minha estadia em Ancara, acabei por passar por acaso pelo local do atentado, onde estava um memorial em honra das vítimas e, mesmo aí, senti-me segura.

Reconheço que poderei parecer temerária, mas diria que o sou com moderação. Nesse sentido, antes de partir para Ancara, tentei perceber que cuidados deveria ter enquanto turista. O conselho principal era evitar aglomerações e manifestações.
Ora, este foi um conselho que não segui plenamente. O primeiro local que visitei em Ancara foi o imponente mausoléu de Atatürk, o fundador da Turquia moderna. Estava já eu dentro do recinto, a caminho do mausoléu propriamente dito, quando começo a ver autocarros e autocarros a despejar pessoas no centro do complexo. Todas a empunhar bandeiras da Turquia! Entrei em pânico! Estaria no meio de uma manifestação política? Se eu fosse terrorista, aquele seria um óptimo local para atacar.
Pensei dar meia-volta e fugir dali a sete pés. Mas prestei atenção a quem me rodeava: muitas crianças, adolescentes e idosos. E tentei perceber o contexto daquele ajuntamento. Após várias tentativas (a barreira linguística dificultou o processo), lá percebi que era habitual grupos escolares e de seniores visitarem o mausoléu. As bandeiras eram apenas reflexo do patriotismo e alegria dos visitantes e não se enquadravam em qualquer acto político ou manifestação. Respirei de alívio e continuei a visita.

Sei que tive sorte e que foi arriscado manter o plano de visitar a Turquia e, mais especificamente, Ancara, mas fiquei contente por ter conhecido esta cidade tão interessante e ter apoiado este povo tão gentil e acolhedor.

Assim, quando fui colocada perante o cenário de ser perigoso ou um desperdício de tempo e dinheiro visitar a Austrália no início do ano, recordei-me de que a vida em Ancara parecia seguir o seu curso normal. Nessa altura, se não tivesse tido conhecimento do atentado, nem me teria apercebido de que esse acto hediondo tinha sido cometido dias antes.

Se não tivesse ido à Austrália, não teria dado de comer a cangurus. Aqui, em Coober Pedy, em South Australia.

Sinto que, nos noticiários, há tendência para atribuir à totalidade do país uma situação de catástrofe ou insegurança que é, frequentemente, localizada.
Com isto, não pretendo desvalorizar o impacto do atentado em Ancara em Outubro de 2015 ou dos incêndios australianos do Verão de 2019/20, ambos eventos devastadores para todas as pessoas envolvidas.
Mas diria que se pode estabelecer um paralelo com a forma como foi noticiada no estrangeiro a tragédia dos incêndios de 2017 no nosso país, que pode ter criado a impressão de que a maioria do território estava em chamas. Ora, apesar do horror que todos sentimos, a generalidade da população continuou com as suas vidas.

O governo australiano, naquela que me parece ser a sua eficiência habitual, tinha já criado um site onde divulgava o nível de perturbação causado pelos incêndios nos vários pontos do país. Nas semanas seguintes à compra dos bilhetes de avião, fui vendo, com alívio, os vários semáforos tornarem-se verdes.
Durante a minha estadia, apenas notei o efeito dos incêndios por duas vezes.

A primeira foi aquando da excursão ao Pinnacles Desert, em Western Australia, durante a paragem no Yanchep National Park. O nosso guia chamou-nos a atenção para uma secção de mato queimada e, pelo que li, houve danos materiais na povoação. A segunda vez que vi terra queimada foi em Kangaroo Island, em South Australia. A última paragem do dia foi na lindíssima Vivonne Bay, onde a vegetação estava calcinada. Felizmente, em ambos os locais, já se viam ramos verdes a despontar entre as cinzas.

Por outro lado, em Kangaroo Island, percebi que o fogo é considerado um aliado pela população, pois ajuda à regeneração da floresta. E esta, hein? Infelizmente, dadas as condições meteorológicas durante o Verão austral de 2019/20, os incêndios atingiram proporções prejudiciais.

Não se inibam de visitar este país incrível por este motivo! Assim o Senhor Coronavírus no-lo permita.

E que tal foi viajar sozinha?

Foi óptimo!

Vantagens de viajar sozinha

Não encontro muitas vantagens em viajar sozinha, mas a primeira vale por mil!

  • Posso fazer o que quiser, quando quiser, sem ter de negociar ou fazer concessões! Se quiser, levanto-me cedo; se estiver cansada, posso ficar a molengar no alojamento. Se me apetecer almoçar às 16 horas, almoço. Se me apetecer dar mais um mergulho no mar, dou. Se me apetecer prolongar a estadia num determinado local, prolongo. Se me apetecer visitar todos os museus da localidade, visito. Se me apetecer dormir uma sesta, durmo. Se me apetecer jantar às 18 horas, janto. Se me apetecer reservar uma excursão cara, reservo. Se precisar de poupar, poupo. Adoro a liberdade que esta independência me dá e esta é, para mim, a principal vantagem de viajar sozinha.
  • Por outro lado, é mais fácil absorver os vários estímulos que uma viagem traz quando se está só e também mais fácil interagir com pessoas locais ou outros viajantes quando não se está em grupo.
  • Por último, sinto que consigo aproveitar mais o dia, porque não despendo muito tempo em grandes refeições.
Durante a minha estadia em Hobart, na Tasmânia, dediquei um dia inteiro ao MONA, um museu muito peculiar. Nem todas as pessoas teriam paciência para me acompanhar.

Desvantagens de viajar sozinha

  • Para mim, o principal aspecto negativo de viajar sozinha é não ter com quem partilhar os momentos mágicos da viagem. Estou a pensar, por exemplo, na excursão ao Kanku-Breakaways Conservation Park, nos arredores de Coober Pedy, em South Australia, durante a qual assisti ao pôr-do-sol no deserto. Senti-me esmagada pela imensidão e beleza da paisagem e teria gostado de partilhar esse momento com alguém querido.
  • Por outro lado, quando regresso de viagem, tenho sempre a sensação de que as memórias são muito distantes. Sinto que, quando se viaja acompanhado, acabam por surgir brincadeiras e piadas que se vão partilhando nos meses seguintes, o que permite manter vivo o espírito da viagem. Na falta de um(a) companheiro(a) de viagem, criei um blog!
  • Tanto em viagem como em Portugal, as refeições fora são das poucas actividades que, regra geral, não gosto de fazer sozinha. Isso faz com que acabe por conhecer poucos restaurantes no destino. Por outro lado, poupo tempo e dinheiro nas refeições – uma desvantagem transformada em vantagem!
  • Não ter ajuda para lidar com situações difíceis. Durante a minha estadia na Austrália, o único momento em que desejei ter companhia foi quando tive de decidir se interrompia a viagem por causa da pandemia. Sou muito indecisa e teria sido óptimo ter alguém ao meu lado para suavizar o processo.
    Felizmente, não adoeci. Esta é uma situação em que é péssimo estar só. Durante o meu semestre Erasmus, na Hungria, tive uma pneumonia e não foi nada simpático ter de me orientar sem ajuda. Essa foi a única altura em que tive vontade de regressar a Portugal, mas nem tinha energia (nem saúde) para tal.
  • Selfies intermináveis! Gosto de fotografar os locais que visito. E gosto de aparecer em algumas das fotografias. Mas, a certa altura, já estava fartinha das minhas expressões nas selfies. De vez em quando, para variar, lá pedia a alguém para me tirar uma fotografia e, claro, oferecia-me para retribuir o favor. Várias vezes, fiquei com a sensação de que as pessoas já acham estranho tirar fotos que não sejam selfies.
  • Recai sobre mim a totalidade do ónus do planeamento da viagem. Se eu não tratar de reservar uma excursão ou um alojamento, fico sem planos ou tecto. Independentemente da preguiça e/ou inspiração, tenho de tratar da logística.
  • Por outro lado, viajar só pode trazer custos adicionais, nomeadamente quando se opta por quartos privados (por oposição a camaratas ou dormitórios). Isto porque um quarto individual é, regra geral, mais caro do que o preço por pessoa de um quarto duplo ou triplo. Acresce que alugar um carro acaba por não ser uma opção, dados os custos elevados.
  • Por último, quando se viaja acompanhado, acaba-se por visitar sítios que nos poderiam passar ao lado, por não nos parecerem prioritários, e que até podem ser excelentes surpresas.
Esta fotografia não faz jus à beleza do pôr-do-sol no Kanku-Breakaways Conservation Park, nos arredores de Coober Pedy, em South Australia.

Reconheço que não partilhar uma viagem a pode empobrecer em certos aspectos. Mas adorei ter proporcionado a mim própria a oportunidade de viajar sozinha pela Austrália e tenciono repetir a experiência!

Mais australianices

Pois que a Austrália é um país muito à frente, sim senhor, mas também tem as suas peculiaridades, que não se esgotam num único artigo.

Passadeiras

A primeira coisa em que reparei em Cottesloe, a minha primeira paragem na Austrália, foi na escassez de passadeiras. Nesta localidade, chegava a haver rotundas sem qualquer passadeira ao redor (se bem que o tráfego automóvel não era muito intenso). Escusado será dizer que era raro o condutor que parava na ausência de passadeira.
Mais tarde, reparei que as passadeiras são frequentes no centro das cidades mas, mal se sai do centro, estas escasseiam.

Quando tive oportunidade, perguntei a um local como funcionam as prioridades nestes casos. Parece que os peões terão sempre prioridade, mesmo que não haja passadeira. Como disse Joacine Katar Moreira: “É mentira! Mentira!” Eu chegava a pensar duas vezes antes de atravessar intersecções movimentadas porque sabia que ia ficar tempos e tempos à espera.

Não deixa de ser estranho que um país preocupado com a segurança dos seus cidadãos e visitantes (ver abaixo) não ache relevante projectar passadeiras.

Para um europeu continental, atravessar ruas e estradas na Austrália é ainda mais emocionante, porque os australianos conduzem do lado “errado” da estrada.

Quem precisa de passadeiras, quando tem praias destas? (Cottesloe, em Western Australia).

Explicações para tudo

Fiquei com a impressão de que os australianos não têm de ser desenrascados para sobreviver. Existem explicações e avisos por todo o lado. O meu preferido está na estação ferroviária de Cottesloe. Cheguei à plataforma e vi a máquina de venda de bilhetes, um mastodonte impossível de ignorar. Abeirei-me do mesmo e reparei num aviso alertando que a máquina propriamente dita está na outra face do paralelepípedo. Mas era mesmo preciso explicar isso?

Também gostei muito de um outro aviso no primeiro hostel onde me instalei (Cottesloe parece ser um manancial de australianices!). Habitualmente, quando decorrem limpezas, o funcionário coloca um triângulo a avisar que o piso está molhado. Pois que este hostel tem um aviso em permanência nas escadas, a alertar os hóspedes para que o piso é escorregadio quando está molhado. Haverá algum adulto que não saiba que a tijoleira é escorregadia quando molhada?

Preocupações com a segurança dos cidadãos

O país que tem poucas passadeiras parece, noutros aspectos, ter cuidado com a segurança dos seus cidadãos. As pessoas são incentivadas a segurar-se aos corrimãos nas escadas rolantes. Não tenho esse hábito, por motivos de higiene. Mas, na Austrália, estava tudo tão limpo, que adoptei, temporariamente, esta prática. Pergunto-me como têm procedido os australianos a este respeito nesta era COVID-19.

Escada rolante na estação de Rockingham, nos arredores de Perth.

Reconhecimento da propriedade aborígene

Invariavelmente, as visitas guiadas e os espectáculos aos quais assisti começavam com o reconhecimento de que estavam a decorrer em território pertencente ao povo aborígene local. Por outro lado, vários edifícios públicos tinham placas afixadas a reconhecer o mesmo.

Nota-se que a Austrália tenta compensar os nativos aborígenes pelos abusos cometidos durante a era colonial. Mas percebe-se que ainda há muitas feridas abertas.
Para além da prática de adopções ilegítimas de caucasianos entre 1950 e 1975, milhares de crianças aborígenes foram retiradas às suas famílias e entregues a famílias brancas, para forçar a sua aculturação. Esta geração de crianças é referida como stolen generation.

Esta era uma questão que eu teria gostado de explorar com mais profundidade durante a minha estadia na Austrália.

Outras curiosidades

O mundo ao contrário

É tudo uma questão de perspectiva.

Mapa que encontrei em Coober Pedy, South Australia

Estações do ano

Achava eu que a data de início de cada estação do ano era uma convenção universal, quando, no dia 29 de Fevereiro, me disseram que era o último dia do Verão na Austrália. Como assim? Para os australianos, o Outono decorre entre 1 de Março e 31 de Maio, o Inverno termina a 31 de Agosto e a Primavera dá lugar ao Verão no dia 1 de Dezembro. E esta, hein?

Reporte de avarias

Era comum haver avisos afixados a pedir que se reportassem avarias ou inconformidades em espaços públicos, como quartos de banho ou semáforos. Parece haver muito cuidado com o espaço público na Austrália.

Caixa de electricidade junto a um semáforo em Launceston, na Tasmânia.

Ingredientes indesejados

Adoro comer fora, mas não faço muita questão de o fazer quando viajo sozinha. Assim, durante a minha estadia na Austrália, acabei por conhecer poucos restaurantes, pelo que não posso opinar sobre a gastronomia australiana. Reparei que comem canguru, mais precisamente wallaby. Gosto de comer pratos típicos, mas os cangurus são demasiado fofos para o meu gosto.
No entanto, reparei numa constante: a quantidade exagerada de maionese e manteiga nas sandes. Blerk!

Estreias de cinema tardias

Fiquei com a impressão de que algumas estreias de cinema na Austrália ocorrerão depois das nossas. Em Cottesloe, vi um cartaz a anunciar a estreia do filme O Caso de Richard Jewell, realizado por Clint Eastwood, em meados de Fevereiro. Sendo que eu já tinha visto esse filme em Portugal semanas antes.

Paragem de autocarro em Cottesloe, em Western Australia.

Matrículas dos carros

Na Austrália, parece ser possível personalizar as matrículas dos carros, o que dá alguns resultados engraçados.

Matrícula peculiar em Fremantle, em Western Australia.

Bancos com dedicatórias

Ao longo da viagem, fui reparando em muitos bancos públicos dedicados a habitantes locais, pessoas comuns. Na Austrália, parece haver um sentido de comunidade que vejo nas séries americanas e que não faz parte da nossa cultura.

Banco nos arredores de Adelaide, em South Australia.

Pergunto-me o que causará espanto aos australianos quando nos visitam.

Australianices

Adorei a minha estadia na Austrália e fiquei fã deste país incrível. No entanto, o meu olhar de forasteira detectou algumas peculiaridades deste quase continente.

Australianês

A língua oficial da Austrália é o inglês, com açúcar. Para além do simpático sotaque, os australianos têm tendência para abreviar as palavras e/ou usar diminutivos: brekkie em vez de breakfast (pequeno-almoço), toastie em vez de toast (tosta) e barbie em vez de barbecue, entre outros. Acresce, ainda, a sigla BYO para bring your own, quando é possível levar a própria bebida ou comida para um restaurante (algo muito pouco usual por terras lusitanas).
E nem os nomes das terras escapam! Rottnest Island é carinhosamente tratada por Rotto, Launceston é Lonnie e Brisbane é Brissie.
Os australianos também usam expressões engraçadas. Várias vezes me perguntaram Where is home for you? em vez do habitual Where are you from?. Elegante, não é?

Salmon Bay, na paradisíaca Rotto, em Western Australia.

Conforto

Sente-se que a Austrália é um país muito desenvolvido. Os equipamentos públicos que utilizei estavam limpos e em bom estado. É frequente os parques terem disponíveis barbecues para uso gratuito por parte dos visitantes, barbecues esses que estavam imaculados!

Fontes de água

Em Setembro do ano passado, deixei de consumir água engarrafa em casa e passei a fazer-me acompanhar por uma garrafa reutilizável. Garrafa essa que trabalhou muito na Austrália, porque há bebedouros por todo o lado! Nota-se que neste país as preocupações ambientais são a regra e não a excepção.

Instalações sanitárias

Há quartos de banho públicos por todo o lado! Estão limpos e, mesmo no auge da crise do papel higiénico, tinham papel higiénico. Esta foi uma surpresa simpática e muito conveniente para quem viaja.
Percebi que será socialmente aceite entrar num estabelecimento comercial exclusivamente para usar as instalações sanitárias. E dei de caras com uma notícia sobre a indignação da população local quando um restaurante da cadeia McDonalds’ decidiu vedar o acesso ao quarto de banho a não clientes. E esta, hein?

Pagamentos sem dinheiro

Algo que me chamou a atenção foi quão comuns eram os pagamentos em regime contactless, tanto com cartões bancários como com o telemóvel. O pagamento com cartão era aceite mesmo para quantias baixas. Muito prático e higiénico!

Algures no deserto, nos arredores de Coober Pedy, em South Australia.

Simpatia

Quando aterrei em Perth, segui de autocarro para Cottesloe. A maioria dos passageiros cumprimentava o motorista à entrada do veículo. Até aqui, tudo normal; eu tenho o mesmo hábito. Mas, à saída, reparei que vários passageiros faziam questão de ir ter com o motorista para se despedir. Pensei que se conheceriam. No entanto, durante a minha estadia, reparei que era habitual acenar ao motorista à saída do autocarro e, eu própria, adoptei este hábito tão simpático.
Desde o meu regresso forçado a Portugal, tenho tentado manter alguma ligação à Austrália, assistindo a webinars australianos. Adoro o modo gentil como se exprimem – os australianos são mesmo assim! E, tendo assistido a alguns comunicados da Primeira-ministra neozelandesa Jacinda Ardern, parece-me que os neozelandeses também o serão.

É mais fácil ser simpático com o motorista quando os autocarros passam com frequências decentes (em Adelaide, em South Australia).

Lentidão nos autocarros

Algo que me irritava era a lentidão dos passageiros a sair dos autocarros. Eu tento ser eficiente no meu dia-a-dia e, quando ando de autocarro, procuro sair com rapidez do mesmo, para que a viagem seja mais rápida para todos. Recordo-me de a STCP, no Porto, promover campanhas nesse sentido.
Mas esta filosofia não faz parte do modo de estar dos australianos. As pessoas apenas se levantam quando o autocarro pára completamente (o que até é mais seguro) e, depois, dirigem-se muuuuitooo lentamente para a saída, parando para acenar e se despedir do motorista. A tuga em mim tinha vontade de gritar: “Despachem-se!”

Mural em Sheffield, na Tasmânia.

Não conheço muitas pessoas que tenham estado na Austrália, pelo que não tenho tido muitos interlocutores para trocar experiências. Por isso, se alguém desse lado por lá tiver andado e tiver outras australianices para partilhar, a caixa de comentários está disponível!

Mais dois longos regressos a casa

Escrever sobre o meu regresso da Austrália lembrou-me uma outra atribulada viagem de regresso a casa.
No primeiro semestre do ano lectivo 2009/2010, estudei na cidade de Pécs, na Hungria, ao abrigo do programa Erasmus. Foi um semestre incrível, durante o qual cresci muito. Regressei ao Porto no final de Janeiro de 2010. Mas, como deixei muitos amigos na Hungria, fui lá em Abril, gozar uma semana de férias.

Vista quase aérea sobre Szeged, a cidade onde estudei húngaro durante um mês, no Verão de 2009.

Estava eu sossegada na Hungria quando a erupção do impronunciável vulcão islandês Eyjafjallajökull lançou o caos no espaço aéreo europeu. Os meus dois voos de regresso foram cancelados!
Eu estava a adorar a minha segunda estadia na Hungria e não me importaria de a prolongar, mas corria o risco de reprovar a uma disciplina caso não regressasse à faculdade o mais rapidamente possível. Foi isso que me impeliu a procurar forma alternativa de voltar ao Porto.

Por esses dias, os websites das companhias aéreas e dos aeroportos estavam assoberbados, pelo que me dirigi ao aeroporto de Budapeste. Não sabiam quando seriam retomadas as operações e, uma vez que o encerramento do espaço aéreo já durava há alguns dias, eu não faria parte do primeiro lote de passageiros a embarcar.

Vista sobre o Parlamento húngaro, em Budapeste.

Como precisava mesmo de regressar ao Porto, procurei alternativas. Se não é possível regressar por ar, há de ser possível regressar por terra! Pesquisei e encontrei um autocarro que partiria de Budapeste no dia seguinte com destino a Paris e, horas depois, havia um outro autocarro a sair de Paris em direcção ao Porto. Chegaria a casa na quarta-feira.
No dia seguinte, peguei na minha mala e dirigi-me para a central rodoviária de Budapeste, pouco animada. É que a opção terrestre implicava duas viagens de 25 horas cada! Eu nunca tinha feito viagens tão longas de autocarro e não estava com vontade de experimentar.

Quando cheguei à central, esta estava a abarrotar. Pelos vistos, a minha ideia não tinha sido original. Abeirei-me do balcão e pedi um bilhete para esse dia. Já não me recordo por que motivo não tratei da reserva online.
Respondeu-me a funcionária que só havia bilhetes internacionais, para qualquer destino, a partir de Maio! Fiquei de boca aberta e, secretamente, respirei de alívio.
Nesta fase, a minha melhor (e aparentemente única) opção passava por voar logo que possível.

Horas depois, soube que iriam sair alguns voos de Budapeste no dia seguinte. Voltei a correr para o aeroporto: a companhia com a qual eu tinha reservado apenas me permitiria viajar a partir de sexta-feira, o que implicaria uma reprovação por falta de assiduidade. Mas havia um voo para Barcelona, com uma outra companhia, no dia seguinte. Telefonei aos meus Pais, que iriam adiantar os fundos para o meu regresso. Obtida a autorização, reservei um novo voo. Senti-me VIP, a comprar um voo no balcão do aeroporto.

A bonita puszta (estepe) húngara.

No dia seguinte, ao final da tarde, aterrei no aeroporto de Barcelona e corri para o ponto de internet, para tentar alterar a minha reserva entre Madrid e o Porto.
Esse voo tinha sido o mais barato que alguma vez tinha comprado: apenas 10€! Já tinha ouvido falar nestas pechinchas, mas nunca me tinha deparado com nenhuma. De tal forma que achava que era mito.
Infelizmente, já não fui a tempo de alterar essa reserva, pelo que tive mesmo de comprar um novo voo. Voo esse que custou bem mais do que os 10€ iniciais – grrr!

Com este assunto tratado, ainda consegui passear um pouco pelas Ramblas e jantei uma bela paelha ao ar livre. Foi a minha primeira visita a Barcelona e fiquei cheia de vontade de voltar.

Pelas 23 horas, entrei no autocarro que me levou a Madrid. No dia seguinte, mal cheguei ao avião, adormeci. Durante a viagem, acordei sobressaltada. O avião estava a abanar! Será que se iria despenhar? Não! Estávamos só a aterrar. Ufa!
Bem-vindos ao Porto! Missão cumprida!

Mas este não foi o meu único regresso atribulado da Hungria!

Fim de tarde no lindíssimo lago Balaton.

Em Janeiro, quando o meu semestre húngaro terminou, tinha reservado um voo de Budapeste para Genebra, que deveria partir pelas 11 horas. Durante o dia, o voo foi sucessivamente adiado, ao ponto de nos terem retirado da zona internacional do aeroporto e nos terem dado autorização para sairmos do mesmo. Achei que não compensava ir até ao centro de Budapeste, pelo que me entretive pelo aeroporto.
E tentei ver o lado positivo da situação: ia poder dar uma volta por Genebra, que ainda não conhecia. Tratei logo de fazer uma reserva num hostel e até estava entusiasmada com esta oportunidade inesperada.
Entretanto, tentei alterar a minha reserva seguinte, entre Genebra e o Porto mas, como viajava com uma companhia low cost, a mesma considerou que não tinha nada que ver com este atraso (apesar de o voo atrasado ser desta companhia) e, portanto, caber-me-ia arcar com a despesa da reserva de um novo voo. Obrigada easyJet!

Esta fotografia foi tirada pelas 17h30!

Levantámos voo pelas 18h00 – aleluia! A esta altura, já estávamos todos saturados.
Ao chegarmos a Genebra, o comandante avisou que estávamos a “andar às voltas” sobre o aeroporto, por causa de um nevão. Cerca de meia hora depois, o piloto informou que o aeroporto estava encerrado e estávamos a ficar sem combustível! O voo ia ser desviado para Lyon, a partir de onde seríamos transportados para Genebra de autocarro! Que mais iria acontecer?
Entretanto, o comandante e a tripulação acharam que seria adequado fazer os anúncios apenas em francês. Na Hungria, o francês não é uma língua popular. Quando lá estive, apercebi-me de que as pessoas mais velhas aprenderam russo ou alemão e, os mais jovens, oscilavam entre o alemão e o inglês. Eram raros os húngaros fluentes em francês. Assim, tornei-me na tradutora oficial para os passageiros à minha volta.

Quando finalmente aterrámos em Lyon, tivemos de aguardar no interior do avião durante uma hora, até que fosse disponibilizada uma escada para sairmos. Nesta fase, o ambiente dentro da aeronave estava de cortar à faca.
Quando nos libertaram, lá nos enfiámos no autocarro, rumo a Genebra. Depois deste suplício, já éramos todos família e eu tinha sido adoptada por um grupo de estudantes Erasmus portugueses que também tentavam regressar à pátria.

Chegámos ao aeroporto de Genebra pela uma hora da manhã. Desisti do plano de ir até ao hostel e de conhecer a cidade. Passei a noite no aeroporto, a minha primeira experiência deste tipo. Repeti agora no Dubai.
De manhã, lá me arrastei até ao check-in e, horas depois, estava, finalmente, em casa.

Fica agora claro que a Hungria não me deixar partir! Infelizmente, ainda não lá voltei. Mas já sei que terei de ir preparada para um potencial longo e atribulado regresso.

E como conseguiste regressar a casa?

Sei que chegaram a Portugal notícias sobre portugueses retidos na Austrália. Não foi o meu caso. Nem me parece que tenha sido o da maioria dos viajantes.
Diria que consegui regressar a casa com um misto de sorte e vil metal.

Sorte

Parti para a Austrália em Fevereiro, sem bilhete de regresso. E, quando a pandemia eclodiu, continuava sem bilhete de regresso, o que me deu total liberdade para escolher o melhor voo naquele contexto.

Por outro lado, a minha indecisão quanto ao regresso permitiu-me ir acompanhando os planos e resultados dos membros dos dois grupos de WhatsApp de portugueses no estrangeiro que eu também integrava.
Retive algumas dicas: comprar as viagens no website das companhias áreas em detrimento de agências online; preferir a Emirates e a Qatar Airways, para chegar à Europa, e, para chegar ao Porto, a TAP e a British Airways; as melhores escalas seriam no Dubai ou em Doha e em Londres.

Tive também muita sorte por não ter tido nenhum dos meus voos cancelados nem ter ficado com dinheiro retido em vales, algo que parece ter acontecido a várias pessoas.

O facto de estar habituada a viajar e de já ter estado numa situação do género ajudaram. Já sabia que tinha de manter a cabeça fria.
Por outro lado, não estava desesperada para sair da Austrália. Sentia-me confortável e bem de saúde, não tinha nenhum trabalho à minha espera, não tinha nenhum familiar doente ou a necessitar do meu apoio e a situação na Austrália estava sob o controlo possível.

Vil metal

Quando se viaja, é preciso ter uma almofada para fazer face a imprevistos. E foi essa almofada que eu usei. Uma viagem intercontinental nunca é barata e não faz sentido esperar pechinchas num contexto de quase catástrofe a nível planetário.

Num dos grupos de WhatsApp, uma estudante de Erasmus indignava-se por lhe ter sido proposto um voo de regresso de um dos países bálticos por 450€. Segundo percebi, foi uma opção encontrada por uma instituição de ensino, sendo que os estudantes apenas tinham de pagar e apresentar-se no aeroporto na data e horário indicados.
Creio que, mesmo em circunstâncias habituais, não há voos directos entre aeroportos portugueses e aeroportos bálticos. Tendo ainda em conta que a proposta era para uma viagem no dia seguinte, o preço não me pareceu descabido.
Paguei mais do que isso há 10 anos, quando regressei da Hungria.

Durante os meus últimos dias na Austrália, deparei-me com uma série de mitos.

Mito 1 – Repatriamento

Criou-se a expectativa de que o governo português iria organizar um voo de repatriamento. Mas a que propósito? Ainda havia companhias aéreas a operar voos comerciais e a Austrália não era propriamente uma zona de guerra da qual precisássemos de ser salvos. Nessa altura, a situação até estava melhor na Austrália do que em Portugal (e assim se tem mantido).
Pelo sim, pelo não, registei-me junto da embaixada portuguesa em Camberra, mas nunca esperei ser transportada gratuitamente.

Mito 2 – Retenções em aeroportos

Lia frequentemente que havia portugueses retidos em aeroportos por esse mundo fora, sem conseguirem prosseguir viagem para Portugal.
Já me estava a imaginar como a versão feminina de Viktor Navorski, personagem do filme The Terminal de Steven Spielberg (2004), que tem de viver num aeroporto durante meses.
Não sei como se gerou esse mito, mas ninguém reportou, em nenhum dos dois grupos aos quais pertenço, ter ficado, de facto, retido.

Meia-verdade – Vou contrair a infecção durante a viagem

Este era um receio comum e que eu partilhava. Quando as fronteiras portuguesas encerraram, eu estava tranquila em Launceston, na Tasmânia, onde tinha todo o espaço do mundo e só me cruzava com pessoas se quisesse.
Assim, não me agradava a ideia de estar fechada num avião, horas a fio, rodeada de pessoas potencialmente infectadas.
Mas senti que os benefícios de regressar a Portugal eram maiores do que a eventual protecção que ficar na Austrália me poderia conferir.

Durante a viagem, fiz o que estava ao meu alcance, sem cair em exageros. Tentei sempre manter-me o mais afastada possível de outros seres humanos, higienizei as mãos com frequência, evitei tocar no rosto e usei máscara.
Quando cheguei ao Porto, vi apenas a minha irmã e cunhado ao longe, que foram ter comigo ao aeroporto para me emprestarem um dos seus carros, e fiquei em isolamento num apartamento sozinha durante duas semanas.

Não sei se terei contraído a infecção durante a viagem e, provavelmente, nunca o saberei. Mas acho que tomei a decisão certa ao regressar da Austrália no dia 23 de Março de 2020.

Um longo regresso a casa

23 e 24-03-2020

Acordei exausta, mas concentrada. Arranjei-me, fechei a mala e parti em direcção à Southern Cross Station, para apanhar o autocarro que me levaria ao aeroporto de Melbourne.
Sentia uma avalanche de emoções: tristeza por deixar este país tão interessante e acolhedor, frustração por ver a minha viagem de sonho interrompida, medo de contrair a doença COVID-19 durante a viagem, desencanto por não me conseguir ter despedido da Austrália, estranheza por sentir que estava a fugir do país e, até, algum alívio por ter finalmente tomado uma decisão e ter um plano.

O aeroporto estava cheio e a fila para o check-in era longa e sem distanciamento social. Conversei um pouco com a passageira que estava imediatamente atrás de mim e cedi-lhe uma das minhas máscaras. Nesta fase, ainda não era obrigatório o uso de máscaras em espaços fechados na Austrália, mas achei que seria prudente usá-la e apiedei-me da rapariga, que também tinha uma longa viagem pela frente.

Lá segui para a porta de embarque, triste e cabisbaixa. Tinha sido tudo tão rápido que nem sequer tinha comprado qualquer souvenir! Passei por uma loja e adquiri uma embalagem de Tim Tam, umas bolachas de chocolate deliciosas que me foram apresentadas em Coober Pedy. Uma delícia que não sobreviveu ao meu confinamento.

Vai um cremezinho de rosto com placenta de ovelha?

A primeira viagem foi tranquila, estava sozinha numa fila de quatro lugares. Dormi, vi filmes, li, relaxei.
Seguiu-se a parte mais dura da viagem: uma escala de mais de 18 horas no aeroporto do Dubai. O meu voo seguinte tinha como destino Londres. Ainda pensei pedir para antecipar a minha partida para Londres, mas como não seria possível antecipar o voo seguinte, para o Porto, deixei-me ficar pelo Dubai.

Acabadinha de chegar ao Dubai.

Já havia algumas medidas de contenção da pandemia em curso, como o aumento da distância entre as mesas nos cafés e restaurantes. O dia passou devagar e sem grandes eventos. Fiz caminhadas pelos corredores do terminal, fui comendo aqui e ali, planeei a ementa para o meu confinamento e enviei uma lista de artigos de que necessitaria aos meus Pais e irmã, entre outros passatempos glamorosos.

Ao final da tarde, falaram-me sobre um dos lounges do aeroporto. Percebi que uma estadia de oito horas com refeições incluídas custava cerca de 120 dirhams, o equivalente a 30€, o que me pareceu um óptimo negócio.
Quando me apeteceu jantar, dirigi-me para o lounge e percebi que, afinal, o preço que me tinham falado era em dólares americanos e não em dirhams. Que mania esta de anunciarem preços em moedas diferentes das locais! Contentei-me com quatro horas de lounge. Dinheiro mal gasto, porque os sofás eram muito desconfortáveis.

Quatro horas depois, regressei ao meio da plebe e apanhei um susto: o aeroporto estava a abarrotar! Durante a tarde, tinha estado quase vazio, mas, a partir da meia-noite, aterraram dezenas de voos. Comecei a ter dificuldade em me sentar longe de outros passageiros, pelo que caminhei madrugada fora. Mas não me posso queixar: tive direito ao luxo de um duche quente – o aeroporto do Dubai tem chuveiros gratuitos. Que bem que me soube!

Horas depois, chegou uma má notícia: o meu voo para Londres estava atrasado duas horas. Porque é que eu não antecipei o meu voo no dia anterior? E se eu perdia o voo para o Porto? Receio infundado.

Chegada a nova hora de partida, embarcámos, mais uma vez em modo de tudo ao molho e fé em Deus. Neste voo, não tive direito a lugares vazios à minha volta. Mas tive direito a um cavalheiro de cada lado a tossir continuamente, sem máscaras e de modo alternado durante toda a viagem. E, como se não bastasse, mexiam no nariz e na boca o tempo todo e tocavam em tudo. Valha-nos São Corona!

Sobrevivi a este voo do inferno e aterrei em Londres Gatwick. Não me apercebi de qualquer controlo sanitário na fronteira. Tratei de procurar o balcão de check-in para o meu terceiro e último voo.
No caminho para a zona das partidas, assisti a uma cena desagradável: num corredor escuro e vazio, um homem de meia-idade, possivelmente embriagado, incomodava uma funcionária de limpeza novinha. Disse-lhe para deixar a senhora em paz e ainda tive de ouvir disparates: “Espanyol? Go back to Spain! You’re not wanted here!”. Mantive-me no local até o homem se ir embora. A rapariga agradeceu-me e eu fiquei a pensar: que mundo é este? Será assim o Reino Unido pós-Brexit?

Chegada ao balcão de check-in, o funcionário não encontrava a minha reserva. O quê? Pânico! Afinal, o sistema de reservas tinha achado por bem juntar os meus três apelidos. Problema resolvido – ufa!

Aliviada mas exausta, lá me arrastei para a zona internacional do aeroporto. Esta parecia uma cidade fantasma, com a maioria dos estabelecimentos encerrados e pouquíssimos passageiros à vista.

E lá fui eu para outra fila de embarque – yupi! Desta feita, a maioria dos passageiros parecia ter cuidado em manter a distância recomendada. E, no voo, havia muitos assentos livres.
Foi um voo tranquilo. Mas, nesta fase, eu já não tinha capacidade para grandes leituras ou reflexões. Estava sem dormir decentemente há mais de 24 horas e o meu cérebro estava em papa.

Ao chegarmos ao Porto, emocionei-me. Mal o avião aterrou, os passageiros saltaram dos seus lugares, como que impelidos por uma mola gigante. Eu mantive a minha técnica habitual: sentadinha, até o corredor estar livre. O meu querido companheiro de fila era apressadinho e fez o favor de passar por cima de mim para usufruir em pleno da confusão no corredor.

Saímos do avião e tínhamos autocarros à nossa espera. Porquê? A pista era tão perto do terminal! Coisas tão simples em termos de controlo de infecção e que podem fazer tanta diferença! Já estava a ficar irritada (a privação de sono não ajudava).
Entrei no aeroporto e deparei-me com longas filas para o controlo de fronteira. Mais uma vez, tudo ao molho e fé em Deus. E ainda tive de ouvir um comentário jocoso de umas tontas atrás de mim, que não percebiam o motivo pelo qual eu me mantinha afastada da pessoa imediatamente à minha frente. Enfim!

Lá passei a fronteira e aguardei pela minha mala, que chegou rapidamente – estava quase livre deste sufoco! Certo? Errado! Mais uma fila, desta vez para passar no termómetro e sair da zona internacional. Aaaaaaah!

Saí do aeroporto. Estava viva! E estava em casa.

Melbourne ao ar livre

22-03-2020

O meu segundo dia em Melbourne começou com… Um free walking tour, claro! Éramos poucos e deu para irmos conversando uns com os outros, mantendo as devidas distâncias. Pela primeira vez durante esta viagem, cruzei-me com uma turista portuguesa. Até este dia, já tinha ouvido falar português de Portugal em Singapura e em Cottesloe, mas ainda não tinha conhecido nenhum turista português.

O dia estava nublado e chuvoso, mas isso não me impediu de apreciar a street art omnipresente no centro da cidade.

Acabámos o tour no mesmo bar onde tinha estado na véspera – que coincidência! Almocei por lá e aproveitei a ligação à internet para perceber que atracções estariam abertas e actualizar-me relativamente aos dois grupos de WhatsApp de portugueses no estrangeiro.
Percebi que as únicas atracções cobertas ainda abertas eram o Sealife, o oceanário lá do sítio, e o Eureka Skydeck, um miradouro. Eureka seja! Como se trata de uma atracção muito popular, tratei logo de comprar o bilhete online.

Ainda abananada com a impossibilidade de visitar a maioria dos museus e monumentos de Melbourne, decidi caminhar em direcção aos bairros de Carlton e Fitzroy. Voltei a notar a mistura de arquitectura colonial e moderna que tinha visto em Perth e Adelaide.
Foi estranho sentir a cidade tão adormecida, possivelmente num misto de domingo e pandemia.

A minha caminhada sem rumo definido levou-me aos bonitos Carlton Gardens, onde aproveitei para dormir mais uma sesta, um clássico desta minha viagem.

Quando acordei, já sentia uma certa melancolia a apoderar-se de mim. Começava a fazer-me sentido antecipar o regresso a casa.

A gota de água veio pouco depois, quando parei num bistrô francês para comprar um crepe com Nutella, a ver se arrebitava. Não era permitido entrar no estabelecimento e o serviço era feito a um balcão colocado na porta. E o jovem dono do bistrô, um francês da minha idade que tinha emigrado para Melbourne meses antes, informou-me de que o chefe de governo do estado de Victoria tinha acabado de ordenar o encerramento de todos os cafés e restaurantes a partir das 20 horas do dia seguinte.

Sem museus, cafés ou restaurantes e com o número de casos de infecção pelo malévolo SARS-CoV-2 a aumentar exponencialmente, que estava eu a fazer na Austrália? Já estava quase decidida a regressar. Faltava só um bocadinho assim.

Pensei: que situação volátil! Horas antes, tinha adquirido o bilhete para o Eureka Skydeck e, agora, já estava a planear regressar a casa. Como esta atracção fechava às segundas-feiras, acelerei até lá, a ver se ainda assistia ao pôr-do-sol nas alturas. Consegui e adorei a experiência!
O Eureka Skydeck é um arranha-céus de 297 metros, com vistas panorâmicas sobre a cidade. Tive pena por ter tido esta experiência no início da minha estadia em Melbourne, pois ainda não conhecia a maioria das atracções observáveis. Mas as vistas eram magníficas.

Melbourne vista quase do céu, a partir do Eureka Skydeck.

Depois do pôr-do-sol, voltei para a zona do hostel. Tinha decidido: ia tentar comprar um voo de regresso a Portugal para terça-feira. Já não fazia sentido continuar a viagem.

Mas como já era hora de jantar, dirigi-me para um dos restaurantes do império Nando’s, o rei do frango de churrasco. Só para contrariar, pedi uma salada vegetariana.

A última ceia.

Com o estômago aconchegado, instalei-me no átrio do hostel e agarrei-me ao telemóvel, a pesquisar voos. O melhor voo partia no dia seguinte às 06h30. Depois de alguns minutos de hesitação, decidi: é este!
E tentei comprar o voo, várias vezes. Após inserir os dados do cartão bancário, recebia sempre uma mensagem de erro. Entretanto, o preço do voo subia. Ai ai ai!

Depois de numerosas tentativas, lá consegui reservar os voos pretendidos. Eram 23 horas e eu partiria no dia seguinte às 6 horas!
Tratei de reservar o autocarro para o aeroporto e conversei um pouco com as minhas companheiras de quarto, que ficaram chocadas quando lhes disse a minha idade: “33? O quê? Não pareces nada ter 33 anos!” Como se eu lhes tivesse dito que tinha 80 anos. Como eu costumo dizer: é dos cremes!

Reuni os meus pertences, tomei um duche e deitei-me para uma curta sesta nocturna. Senti que estava a fugir da minha querida Austrália.

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