Um longo regresso a casa

23 e 24-03-2020

Acordei exausta, mas concentrada. Arranjei-me, fechei a mala e parti em direcção à Southern Cross Station, para apanhar o autocarro que me levaria ao aeroporto de Melbourne.
Sentia uma avalanche de emoções: tristeza por deixar este país tão interessante e acolhedor, frustração por ver a minha viagem de sonho interrompida, medo de contrair a doença COVID-19 durante a viagem, desencanto por não me conseguir ter despedido da Austrália, estranheza por sentir que estava a fugir do país e, até, algum alívio por ter finalmente tomado uma decisão e ter um plano.

O aeroporto estava cheio e a fila para o check-in era longa e sem distanciamento social. Conversei um pouco com a passageira que estava imediatamente atrás de mim e cedi-lhe uma das minhas máscaras. Nesta fase, ainda não era obrigatório o uso de máscaras em espaços fechados na Austrália, mas achei que seria prudente usá-la e apiedei-me da rapariga, que também tinha uma longa viagem pela frente.

Lá segui para a porta de embarque, triste e cabisbaixa. Tinha sido tudo tão rápido que nem sequer tinha comprado qualquer souvenir! Passei por uma loja e adquiri uma embalagem de Tim Tam, umas bolachas de chocolate deliciosas que me foram apresentadas em Coober Pedy. Uma delícia que não sobreviveu ao meu confinamento.

Vai um cremezinho de rosto com placenta de ovelha?

A primeira viagem foi tranquila, estava sozinha numa fila de quatro lugares. Dormi, vi filmes, li, relaxei.
Seguiu-se a parte mais dura da viagem: uma escala de mais de 18 horas no aeroporto do Dubai. O meu voo seguinte tinha como destino Londres. Ainda pensei pedir para antecipar a minha partida para Londres, mas como não seria possível antecipar o voo seguinte, para o Porto, deixei-me ficar pelo Dubai.

Acabadinha de chegar ao Dubai.

Já havia algumas medidas de contenção da pandemia em curso, como o aumento da distância entre as mesas nos cafés e restaurantes. O dia passou devagar e sem grandes eventos. Fiz caminhadas pelos corredores do terminal, fui comendo aqui e ali, planeei a ementa para o meu confinamento e enviei uma lista de artigos de que necessitaria aos meus Pais e irmã, entre outros passatempos glamorosos.

Ao final da tarde, falaram-me sobre um dos lounges do aeroporto. Percebi que uma estadia de oito horas com refeições incluídas custava cerca de 120 dirhams, o equivalente a 30€, o que me pareceu um óptimo negócio.
Quando me apeteceu jantar, dirigi-me para o lounge e percebi que, afinal, o preço que me tinham falado era em dólares americanos e não em dirhams. Que mania esta de anunciarem preços em moedas diferentes das locais! Contentei-me com quatro horas de lounge. Dinheiro mal gasto, porque os sofás eram muito desconfortáveis.

Quatro horas depois, regressei ao meio da plebe e apanhei um susto: o aeroporto estava a abarrotar! Durante a tarde, tinha estado quase vazio, mas, a partir da meia-noite, aterraram dezenas de voos. Comecei a ter dificuldade em me sentar longe de outros passageiros, pelo que caminhei madrugada fora. Mas não me posso queixar: tive direito ao luxo de um duche quente – o aeroporto do Dubai tem chuveiros gratuitos. Que bem que me soube!

Horas depois, chegou uma má notícia: o meu voo para Londres estava atrasado duas horas. Porque é que eu não antecipei o meu voo no dia anterior? E se eu perdia o voo para o Porto? Receio infundado.

Chegada a nova hora de partida, embarcámos, mais uma vez em modo de tudo ao molho e fé em Deus. Neste voo, não tive direito a lugares vazios à minha volta. Mas tive direito a um cavalheiro de cada lado a tossir continuamente, sem máscaras e de modo alternado durante toda a viagem. E, como se não bastasse, mexiam no nariz e na boca o tempo todo e tocavam em tudo. Valha-nos São Corona!

Sobrevivi a este voo do inferno e aterrei em Londres Gatwick. Não me apercebi de qualquer controlo sanitário na fronteira. Tratei de procurar o balcão de check-in para o meu terceiro e último voo.
No caminho para a zona das partidas, assisti a uma cena desagradável: num corredor escuro e vazio, um homem de meia-idade, possivelmente embriagado, incomodava uma funcionária de limpeza novinha. Disse-lhe para deixar a senhora em paz e ainda tive de ouvir disparates: “Espanyol? Go back to Spain! You’re not wanted here!”. Mantive-me no local até o homem se ir embora. A rapariga agradeceu-me e eu fiquei a pensar: que mundo é este? Será assim o Reino Unido pós-Brexit?

Chegada ao balcão de check-in, o funcionário não encontrava a minha reserva. O quê? Pânico! Afinal, o sistema de reservas tinha achado por bem juntar os meus três apelidos. Problema resolvido – ufa!

Aliviada mas exausta, lá me arrastei para a zona internacional do aeroporto. Esta parecia uma cidade fantasma, com a maioria dos estabelecimentos encerrados e pouquíssimos passageiros à vista.

E lá fui eu para outra fila de embarque – yupi! Desta feita, a maioria dos passageiros parecia ter cuidado em manter a distância recomendada. E, no voo, havia muitos assentos livres.
Foi um voo tranquilo. Mas, nesta fase, eu já não tinha capacidade para grandes leituras ou reflexões. Estava sem dormir decentemente há mais de 24 horas e o meu cérebro estava em papa.

Ao chegarmos ao Porto, emocionei-me. Mal o avião aterrou, os passageiros saltaram dos seus lugares, como que impelidos por uma mola gigante. Eu mantive a minha técnica habitual: sentadinha, até o corredor estar livre. O meu querido companheiro de fila era apressadinho e fez o favor de passar por cima de mim para usufruir em pleno da confusão no corredor.

Saímos do avião e tínhamos autocarros à nossa espera. Porquê? A pista era tão perto do terminal! Coisas tão simples em termos de controlo de infecção e que podem fazer tanta diferença! Já estava a ficar irritada (a privação de sono não ajudava).
Entrei no aeroporto e deparei-me com longas filas para o controlo de fronteira. Mais uma vez, tudo ao molho e fé em Deus. E ainda tive de ouvir um comentário jocoso de umas tontas atrás de mim, que não percebiam o motivo pelo qual eu me mantinha afastada da pessoa imediatamente à minha frente. Enfim!

Lá passei a fronteira e aguardei pela minha mala, que chegou rapidamente – estava quase livre deste sufoco! Certo? Errado! Mais uma fila, desta vez para passar no termómetro e sair da zona internacional. Aaaaaaah!

Saí do aeroporto. Estava viva! E estava em casa.

Publicado por Halterofilista

Fiz um ano sabático e ocupei parte do meu tempo livre com uma viagem à Austrália.

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