E como conseguiste regressar a casa?

Sei que chegaram a Portugal notícias sobre portugueses retidos na Austrália. Não foi o meu caso. Nem me parece que tenha sido o da maioria dos viajantes.
Diria que consegui regressar a casa com um misto de sorte e vil metal.

Sorte

Parti para a Austrália em Fevereiro, sem bilhete de regresso. E, quando a pandemia eclodiu, continuava sem bilhete de regresso, o que me deu total liberdade para escolher o melhor voo naquele contexto.

Por outro lado, a minha indecisão quanto ao regresso permitiu-me ir acompanhando os planos e resultados dos membros dos dois grupos de WhatsApp de portugueses no estrangeiro que eu também integrava.
Retive algumas dicas: comprar as viagens no website das companhias áreas em detrimento de agências online; preferir a Emirates e a Qatar Airways, para chegar à Europa, e, para chegar ao Porto, a TAP e a British Airways; as melhores escalas seriam no Dubai ou em Doha e em Londres.

Tive também muita sorte por não ter tido nenhum dos meus voos cancelados nem ter ficado com dinheiro retido em vales, algo que parece ter acontecido a várias pessoas.

O facto de estar habituada a viajar e de já ter estado numa situação do género ajudaram. Já sabia que tinha de manter a cabeça fria.
Por outro lado, não estava desesperada para sair da Austrália. Sentia-me confortável e bem de saúde, não tinha nenhum trabalho à minha espera, não tinha nenhum familiar doente ou a necessitar do meu apoio e a situação na Austrália estava sob o controlo possível.

Vil metal

Quando se viaja, é preciso ter uma almofada para fazer face a imprevistos. E foi essa almofada que eu usei. Uma viagem intercontinental nunca é barata e não faz sentido esperar pechinchas num contexto de quase catástrofe a nível planetário.

Num dos grupos de WhatsApp, uma estudante de Erasmus indignava-se por lhe ter sido proposto um voo de regresso de um dos países bálticos por 450€. Segundo percebi, foi uma opção encontrada por uma instituição de ensino, sendo que os estudantes apenas tinham de pagar e apresentar-se no aeroporto na data e horário indicados.
Creio que, mesmo em circunstâncias habituais, não há voos directos entre aeroportos portugueses e aeroportos bálticos. Tendo ainda em conta que a proposta era para uma viagem no dia seguinte, o preço não me pareceu descabido.
Paguei mais do que isso há 10 anos, quando regressei da Hungria.

Durante os meus últimos dias na Austrália, deparei-me com uma série de mitos.

Mito 1 – Repatriamento

Criou-se a expectativa de que o governo português iria organizar um voo de repatriamento. Mas a que propósito? Ainda havia companhias aéreas a operar voos comerciais e a Austrália não era propriamente uma zona de guerra da qual precisássemos de ser salvos. Nessa altura, a situação até estava melhor na Austrália do que em Portugal (e assim se tem mantido).
Pelo sim, pelo não, registei-me junto da embaixada portuguesa em Camberra, mas nunca esperei ser transportada gratuitamente.

Mito 2 – Retenções em aeroportos

Lia frequentemente que havia portugueses retidos em aeroportos por esse mundo fora, sem conseguirem prosseguir viagem para Portugal.
Já me estava a imaginar como a versão feminina de Viktor Navorski, personagem do filme The Terminal de Steven Spielberg (2004), que tem de viver num aeroporto durante meses.
Não sei como se gerou esse mito, mas ninguém reportou, em nenhum dos dois grupos aos quais pertenço, ter ficado, de facto, retido.

Meia-verdade – Vou contrair a infecção durante a viagem

Este era um receio comum e que eu partilhava. Quando as fronteiras portuguesas encerraram, eu estava tranquila em Launceston, na Tasmânia, onde tinha todo o espaço do mundo e só me cruzava com pessoas se quisesse.
Assim, não me agradava a ideia de estar fechada num avião, horas a fio, rodeada de pessoas potencialmente infectadas.
Mas senti que os benefícios de regressar a Portugal eram maiores do que a eventual protecção que ficar na Austrália me poderia conferir.

Durante a viagem, fiz o que estava ao meu alcance, sem cair em exageros. Tentei sempre manter-me o mais afastada possível de outros seres humanos, higienizei as mãos com frequência, evitei tocar no rosto e usei máscara.
Quando cheguei ao Porto, vi apenas a minha irmã e cunhado ao longe, que foram ter comigo ao aeroporto para me emprestarem um dos seus carros, e fiquei em isolamento num apartamento sozinha durante duas semanas.

Não sei se terei contraído a infecção durante a viagem e, provavelmente, nunca o saberei. Mas acho que tomei a decisão certa ao regressar da Austrália no dia 23 de Março de 2020.

Publicado por Halterofilista

Fiz um ano sabático e ocupei parte do meu tempo livre com uma viagem à Austrália.

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