Mais dois longos regressos a casa

Escrever sobre o meu regresso da Austrália lembrou-me uma outra atribulada viagem de regresso a casa.
No primeiro semestre do ano lectivo 2009/2010, estudei na cidade de Pécs, na Hungria, ao abrigo do programa Erasmus. Foi um semestre incrível, durante o qual cresci muito. Regressei ao Porto no final de Janeiro de 2010. Mas, como deixei muitos amigos na Hungria, fui lá em Abril, gozar uma semana de férias.

Vista quase aérea sobre Szeged, a cidade onde estudei húngaro durante um mês, no Verão de 2009.

Estava eu sossegada na Hungria quando a erupção do impronunciável vulcão islandês Eyjafjallajökull lançou o caos no espaço aéreo europeu. Os meus dois voos de regresso foram cancelados!
Eu estava a adorar a minha segunda estadia na Hungria e não me importaria de a prolongar, mas corria o risco de reprovar a uma disciplina caso não regressasse à faculdade o mais rapidamente possível. Foi isso que me impeliu a procurar forma alternativa de voltar ao Porto.

Por esses dias, os websites das companhias aéreas e dos aeroportos estavam assoberbados, pelo que me dirigi ao aeroporto de Budapeste. Não sabiam quando seriam retomadas as operações e, uma vez que o encerramento do espaço aéreo já durava há alguns dias, eu não faria parte do primeiro lote de passageiros a embarcar.

Vista sobre o Parlamento húngaro, em Budapeste.

Como precisava mesmo de regressar ao Porto, procurei alternativas. Se não é possível regressar por ar, há de ser possível regressar por terra! Pesquisei e encontrei um autocarro que partiria de Budapeste no dia seguinte com destino a Paris e, horas depois, havia um outro autocarro a sair de Paris em direcção ao Porto. Chegaria a casa na quarta-feira.
No dia seguinte, peguei na minha mala e dirigi-me para a central rodoviária de Budapeste, pouco animada. É que a opção terrestre implicava duas viagens de 25 horas cada! Eu nunca tinha feito viagens tão longas de autocarro e não estava com vontade de experimentar.

Quando cheguei à central, esta estava a abarrotar. Pelos vistos, a minha ideia não tinha sido original. Abeirei-me do balcão e pedi um bilhete para esse dia. Já não me recordo por que motivo não tratei da reserva online.
Respondeu-me a funcionária que só havia bilhetes internacionais, para qualquer destino, a partir de Maio! Fiquei de boca aberta e, secretamente, respirei de alívio.
Nesta fase, a minha melhor (e aparentemente única) opção passava por voar logo que possível.

Horas depois, soube que iriam sair alguns voos de Budapeste no dia seguinte. Voltei a correr para o aeroporto: a companhia com a qual eu tinha reservado apenas me permitiria viajar a partir de sexta-feira, o que implicaria uma reprovação por falta de assiduidade. Mas havia um voo para Barcelona, com uma outra companhia, no dia seguinte. Telefonei aos meus Pais, que iriam adiantar os fundos para o meu regresso. Obtida a autorização, reservei um novo voo. Senti-me VIP, a comprar um voo no balcão do aeroporto.

A bonita puszta (estepe) húngara.

No dia seguinte, ao final da tarde, aterrei no aeroporto de Barcelona e corri para o ponto de internet, para tentar alterar a minha reserva entre Madrid e o Porto.
Esse voo tinha sido o mais barato que alguma vez tinha comprado: apenas 10€! Já tinha ouvido falar nestas pechinchas, mas nunca me tinha deparado com nenhuma. De tal forma que achava que era mito.
Infelizmente, já não fui a tempo de alterar essa reserva, pelo que tive mesmo de comprar um novo voo. Voo esse que custou bem mais do que os 10€ iniciais – grrr!

Com este assunto tratado, ainda consegui passear um pouco pelas Ramblas e jantei uma bela paelha ao ar livre. Foi a minha primeira visita a Barcelona e fiquei cheia de vontade de voltar.

Pelas 23 horas, entrei no autocarro que me levou a Madrid. No dia seguinte, mal cheguei ao avião, adormeci. Durante a viagem, acordei sobressaltada. O avião estava a abanar! Será que se iria despenhar? Não! Estávamos só a aterrar. Ufa!
Bem-vindos ao Porto! Missão cumprida!

Mas este não foi o meu único regresso atribulado da Hungria!

Fim de tarde no lindíssimo lago Balaton.

Em Janeiro, quando o meu semestre húngaro terminou, tinha reservado um voo de Budapeste para Genebra, que deveria partir pelas 11 horas. Durante o dia, o voo foi sucessivamente adiado, ao ponto de nos terem retirado da zona internacional do aeroporto e nos terem dado autorização para sairmos do mesmo. Achei que não compensava ir até ao centro de Budapeste, pelo que me entretive pelo aeroporto.
E tentei ver o lado positivo da situação: ia poder dar uma volta por Genebra, que ainda não conhecia. Tratei logo de fazer uma reserva num hostel e até estava entusiasmada com esta oportunidade inesperada.
Entretanto, tentei alterar a minha reserva seguinte, entre Genebra e o Porto mas, como viajava com uma companhia low cost, a mesma considerou que não tinha nada que ver com este atraso (apesar de o voo atrasado ser desta companhia) e, portanto, caber-me-ia arcar com a despesa da reserva de um novo voo. Obrigada easyJet!

Esta fotografia foi tirada pelas 17h30!

Levantámos voo pelas 18h00 – aleluia! A esta altura, já estávamos todos saturados.
Ao chegarmos a Genebra, o comandante avisou que estávamos a “andar às voltas” sobre o aeroporto, por causa de um nevão. Cerca de meia hora depois, o piloto informou que o aeroporto estava encerrado e estávamos a ficar sem combustível! O voo ia ser desviado para Lyon, a partir de onde seríamos transportados para Genebra de autocarro! Que mais iria acontecer?
Entretanto, o comandante e a tripulação acharam que seria adequado fazer os anúncios apenas em francês. Na Hungria, o francês não é uma língua popular. Quando lá estive, apercebi-me de que as pessoas mais velhas aprenderam russo ou alemão e, os mais jovens, oscilavam entre o alemão e o inglês. Eram raros os húngaros fluentes em francês. Assim, tornei-me na tradutora oficial para os passageiros à minha volta.

Quando finalmente aterrámos em Lyon, tivemos de aguardar no interior do avião durante uma hora, até que fosse disponibilizada uma escada para sairmos. Nesta fase, o ambiente dentro da aeronave estava de cortar à faca.
Quando nos libertaram, lá nos enfiámos no autocarro, rumo a Genebra. Depois deste suplício, já éramos todos família e eu tinha sido adoptada por um grupo de estudantes Erasmus portugueses que também tentavam regressar à pátria.

Chegámos ao aeroporto de Genebra pela uma hora da manhã. Desisti do plano de ir até ao hostel e de conhecer a cidade. Passei a noite no aeroporto, a minha primeira experiência deste tipo. Repeti agora no Dubai.
De manhã, lá me arrastei até ao check-in e, horas depois, estava, finalmente, em casa.

Fica agora claro que a Hungria não me deixar partir! Infelizmente, ainda não lá voltei. Mas já sei que terei de ir preparada para um potencial longo e atribulado regresso.

Publicado por Halterofilista

Fiz um ano sabático e ocupei parte do meu tempo livre com uma viagem à Austrália.

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