A única desilusão

Parti para a Austrália sozinha e o plano passava por me manter sozinha a maior parte do tempo. Mas, tendo em conta que que me iria cruzar com outros viajantes ao longo do caminho, pensei que poderíamos fazer alguns programas juntos.

Por exemplo, ainda em Portugal, já tinha definido que queria visitar a paradisíaca Rottnest Island, em Western Australia. Pelo que tinha lido, parecia-me melhor pernoitar uma noite na ilha, para a aproveitar ao máximo.
Tratei de pesquisar alojamento, mas era caríssimo: uma cama numa camarata num hostel, sem roupa de cama ou toalha de banho, custava 60 dólares australianos por noite, algo como 45€! O meu limite mental de preço para uma cama num dormitório de um hostel está nos 30€ por noite, cortesia de Copenhaga e Amesterdão. Mas tem de ser um hostel óptimo e bonito, o que não parecia ser o caso deste.
Reparei que, na ilha, havia uns bungalows por 120 dólares australianos por noite, com capacidade para seis pessoas. Na minha inocência, achei que seria uma boa ocasião para angariar companheiros de viagem e partilhar o alojamento.

Salmon Bay, na paradisíaca Rottnest Island.

Tal não se veio a verificar.

Com efeito, notei uma tendência de comportamento por parte das pessoas com quem me fui cruzando nos hostels ao longo das semanas: todos, novos e velhos, estavam sempre agarrados aos telemóveis! Eram raras as pessoas que permaneciam nas áreas comuns sem estar de olhos fixos num ecrã. Acresce que muitos dos hóspedes dos vários hostels por onde passei circulavam nas áreas comuns com auriculares em ambos os ouvidos, o que invalidava qualquer tentativa de aproximação.
Por outro lado, frequentemente, aconteceu-me entrar na cozinha ou na sala de refeições e, após cumprimentar os presentes, não receber qualquer resposta ou olhar de volta.

Dado este contexto e após conversar com duas pessoas “normais” no meu primeiro hostel, percebi que era exequível ir a Rottnest Island mesmo que por apenas um dia, pelo que abandonei a ideia de procurar companhia para esta deslocação.

Tive alguma dificuldade em perceber esta forma de estar e fiquei preocupada com o futuro da humanidade. Estaremos a perder a capacidade de interagir com desconhecidos?
Fiquei desapontada. Gosto de conhecer pessoas novas e, frequentemente, as pessoas que viajam são interessantes e boas conversadoras. Além disso, é sempre bom trocar dicas de viagem e sentir que se pertence a uma comunidade.

Ainda durante a minha estadia em Cottesloe, descobri, por acaso, o blog Bald Nomad, de Geoffrey Morrison, um viajante americano que também teve dificuldade em socializar durante a sua estadia em Western Australia, em 2015. Que coincidência!
Uma das explicações que ele avançava é o facto de muitos dos hóspedes dos hostels onde ficou instalado residirem no hostel. Com efeito, a Austrália permite a entrada de estrangeiros no âmbito de um visto Work and Holiday. Os detentores deste visto podem trabalhar e viajar livremente por todo o país durante a sua estadia na Austrália. Esta parece ser uma opção muito popular. E, de facto, tanto no hostel de Cottesloe como no de Fremantle, tive a impressão de que muitos dos hóspedes lá residiam. A certa altura, até sentia que estava numa residência de estudantes e não num hostel.

Grupo de amigos a assistir ao pôr-do-sol em Cottesloe.

Assim, percebi melhor o facto de não ter havido muitas oportunidades de convívio. Compreendo que quem reside num hostel há semanas ou meses já terá o seu grupo de amigos e não tenha particular interesse em interagir com os hóspedes temporários, como era o meu caso. Essas pessoas fazem vida de residente e não de turista.

Ao perceber este contexto, o meu receio pelo futuro da humanidade esbateu-se, mas não se dissipou na totalidade. Continuo a achar preocupante a dependência que tantas pessoas parecem ter em relação aos seus telemóveis.

Felizmente, nem sempre estive apenas entregue à minha companhia e fui-me cruzando com pessoas interactivas, muito simpáticas e interessantes ao longo das semanas. Porque viajar sozinho(a) não tem de implicar estar sempre só.

Publicado por Halterofilista

Fiz um ano sabático e ocupei parte do meu tempo livre com uma viagem à Austrália.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Create your website with WordPress.com
Iniciar
%d bloggers like this: