Indo eu, indo eu, a caminho de Vi… Melbourne

21-03-2020

Bom dia Launceston! De mala feita, segui para o pequeno aeroporto local, que estava quase deserto. No controlo de segurança, uma das funcionárias empalideceu quando percebeu que eu era portuguesa / europeia. Tratei de a tranquilizar logo: eu já estava na Austrália há mais de um mês, não estava doente e não tinha contactado com ninguém doente.
Procurei manter-me afastada dos outros passageiros enquanto aguardava o embarque. Este decorreu como habitualmente: tudo ao molho e fé em Deus. Comecei a ficar preocupada – será que a Austrália ainda não se tinha apercebido da pandemia?
Ao chegar à minha fila, um dos meus vizinhos de assento resolveu meter conversa comigo quando eu ainda estava em pé no corredor. Perguntou alto e em bom som: “Então, és italiana?”. Respondi de forma a que outros passageiros pudessem ouvir, não fossem iniciar um motim e expulsar-me do avião: “Não! Sou portuguesa, mas não se preocupe, já estou na Austrália há mais de um mês e não tenho qualquer sintoma!”
Seria melhor inventar outra nacionalidade daí em diante?

Chegada a Melbourne, segui para o meu hostel de autocarro. Já há algum tempo que pensava se fazia sentido continuar a hospedar-me em camaratas, por causa da pandemia.
Mas tinha decidido aplicar a estratégia do livro “O Segredo”, de Rhonda Byrne: agir como se aquilo que almejo fosse realidade. Neste caso, como eu desejava continuar a viagem, agi como se tal fosse acontecer. Venceu a camarata e reservei 5 noites em Melbourne.

Olá Melbourne!

Na recepção do hostel, fiquei um pouco surpreendida por ninguém me ter perguntado a minha data de entrada no país. É que, desde o dia 16 de Março, quem chegava à Austrália era obrigado a cumprir 14 dias de isolamento. Isolamento esse que não poderia ser feito numa camarata de um hostel. Não gostei.

Depois de me instalar, saí para explorar a cidade. A minha primeira impressão de Melbourne não foi positiva. Achei a cidade muito movimentada e suja. Há que ver que eu tinha estado quase duas semanas na Tasmânia, que é uma paz de alma e onde as ruas estão limpíssimas. Já não via tantas pessoas juntas desde Singapura! Mas rapidamente me adaptei ao bulício melbourniano.

A bonita estação ferroviária de Flinders Street.

Passei à porta do Immigration Museum, um dos museus que queria visitar, mas estava fechado. Como não havia nenhum aviso visível, não percebi se o encerramento tinha que ver com a pandemia.
Segui para a imponente St Paul’s Cathedral, onde os visitantes eram obrigados a lavar as mãos com água corrente e sabão à entrada.

St Paul’s Cathedral.

Depois, passei pelo posto de turismo e levei com um balde de água fria: este havia encerrado na antevéspera. Caramba, isto estava a ficar mesmo mau, se já estavam a encerrar postos de turismo!
Engoli em seco e segui para Chinatown. A maioria do comércio estava aberta, mas o Museum of Chinese Australian History não. Soube no dia seguinte que vários negócios estavam encerrados há semanas pois os donos não tinham sido autorizados a entrar no país após viajarem para a China para celebrar o ano novo chinês. Disseram-me, também, que mais de 50% da população da cidade tem origem asiática, com predomínio de chineses e indianos! Sente-se e vê-se na cidade a presença forte destas culturas, o que é muito interessante.

Em Roma, sê romano. Desde há semanas que via pessoas na rua a beber os seus bubble tea, umas bebidas à base de chá e leite, com pérolas de tapioca, com um ar exótico. Tinha chegado a minha vez!

Bubble ao quadrado! Bubble tea e bubble waffle.

Reposta a glicemia, aproximei-me do rio. No caminho, passei pela bonita Federation Square. Mas tive mais uma má notícia: o centro cultural aborígene que queria visitar, o Koorie Heritage Trust, também estava encerrado.

Parte de Federation Square.

Atravessei a Princes Bridge, sobre o rio Yarra, e apaixonei-me por Melbourne. Que vista incrível!

Sobre a Princes Bridge.

Já do outro lado do rio, passei à porta da National Gallery of Victoria e (surpresa!) também estava fechada por tempo indeterminado.
Adorei a arquitectura dos edifícios desta zona, moderna e original. E tive direito a assistir à gravação de um videoclipe de uma banda talvez de K-pop (música pop sul-coreana).

Já de regresso ao hostel, usei a Sandridge Bridge para a travessar o rio. Esta antiga ponte ferroviária actualmente é pedonal e ciclável e está decorada com uma série de painéis sobre as nacionalidades de origem dos habitantes do estado de Victoria. Foi muito interessante saber de onde provêm estes australianos e perceber quais as maiores comunidades, quando chegaram e em que contexto.

Durante a tarde, tinha sido contactada por uma portuguesa que estava a morar em Melbourne. Combinámos tomar um copo ao início da noite num bar no centro. Consultei o meu fiel Google Maps, que me disse que estava a 20 minutos a pé do ponto de encontro. Perfeito!
Depois dos meus passeios, passei rapidamente pelo hostel para pegar num agasalho e – horror – descobri que estava a 40 minutos a pé do ponto de encontro! Eu claramente já não estava habituada a cidades grandes.
Avisei a Patrícia e tratei de perceber rapidamente como chegar ao bar de transportes públicos. Lá corri para o comboio e cheguei ao nosso ponto de encontro a horas minimamente decentes.

Soube bem ouvir e falar português e trocar impressões com alguém numa situação semelhante. Para já, o meu plano passava por continuar a explorar Melbourne.

Um mergulho na natureza

20-03-2020

Rise and shine! Mais um dia a madrugar, desta feita para uma excursão ao famoso Cradle Mountain-Lake St Clair National Park.
Nesta fase, a minha rotina matinal incluía pelo menos uma hora agarrada ao WhatsApp, a tentar perceber o que andavam os outros viajantes a fazer. Uma péssima maneira de começar o dia.
Graças a este novo mau hábito, o Tony, o nosso guia e motorista, apanhou-me de iogurte e colher na mão, à porta do hostel. E veio com uma proposta surpreendente: eu podia anular a reserva no momento e devolver-me-iam o dinheiro. É que, tirando eu e uma turista de Hong Kong, os restantes clientes tinham cancelado a sua reserva. Perguntava o Tony: como é que eu preferia proceder?

Mas qual é a dúvida? Claro que quero ir a Cradle Mountain! Foi a decisão mais fácil da semana.
E lá fomos nós, em direcção ao interior da ilha. Parámos num café e já se pedia aos clientes para evitar pagamentos em numerário. A pandemia já era omnipresente.

Em Elizabeth Town, a caminho do Cradle Mountain-Lake St Clair National Park.

A paragem seguinte foi em Sheffield, uma vila que se pôs na rota turística organizando um festival internacional anual de pintura mural. Vários dos edifícios da cidade têm as suas paredes decoradas. Possivelmente devido à falta de paredes para pintar, a vila criou o Mural Park, onde ficam em exibição alguns dos murais de edições anteriores. Muito giro!

A seguir, o esperado Cradle Mountain-Lake St Clair National Park. E o frio! Agradeci a mim própria por ter comprado agasalhos extra e ter vindo em modo cebola (às camadas) e chouriço (bem apertada).

Que ar puro! Começámos pela curta Rainforest Walk, junto ao centro de interpretação. Mais uma vez, fiquei impressionada com os tons de verde desta ilha. E adorei o cheiro a terra e plantas molhadas.

A seguir, o ponto alto do dia: uma caminhada longa junto à Cradle Mountain. E lá veio o Tony com mais uma proposta exótica: como estava a chuviscar, podíamos caminhar durante cerca de 15-20 minutos e passar o resto do tempo numa prova de whiskeys.
Então vinha eu de Portugal para os confins da Tasmânia para me enfiar numa prova de whiskeys? Nem pensar!
Felizmente, a Edith e eu estávamos no mesmo comprimento de onda e lá fomos nós percorrer o lindíssimo Dove Lake Circuit. E que bem que soube estar no meio da natureza, a apreciar a imponência das montanhas, a ver o lago de vários pontos, com as suas águas férreas e a passar por zonas com vegetação tão densa que não deixava passar a chuva. Foi tão bom e bonito! E se assim foi num dia nublado, nem imagino como teria sido com sol.

No final da caminhada, o Tony estava à nossa espera e deu-nos os parabéns por termos optado pela caminhada em detrimento da prova de whiskeys. Pelos vistos, apesar de esta excursão ser promovida como sendo de aventura, parece que a maioria dos clientes opta pela versão whiskey. Mistérios da vida!

Seguimos para um abrigo de montanha, o Waldheim day shelter, para almoçar. Tivemos direito a aquecedor e que bem que soube!

Ronny Creek visto a partir do Waldheim day shelter. Lindo!

De estômago reconfortado, visitámos o acolhedor Waldheim chalet, contruído pelo casal Kate e Gustav Weindorfer, no início do século XX. Foram estes exploradores os visionários promotores da criação deste parque nacional. O chalé está rodeado por uma bonita floresta húmida, que inclui a Weindorfers Forest Walk.

Já no caminho de saída do parque vi, pela primeira vez, wombats selvagens! São mesmo fofos. E, como bons wombats, viraram-nos o “rabo” – lindos meninos!

Wombat selvagem, ainda de perfil, na zona de Ronny Creek.

No regresso a Launceston, parámos numa fábrica de lacticínios e provei umas bolinhas de queijo desidratado muito crocantes e saborosas. Que petisco original!

Na fábrica de lacticínios.

Cheguei a Launceston animada, mas já a recear a enxurrada de mensagens que teria à minha espera no WhatsApp. Entretanto, já havia um grupo só para portugueses na Austrália.
Cometi o erro de ligar o wifi junto à porta do hostel e já nem subi ao quarto. Alapei num banco exterior nas duas horas seguintes.

Esta overdose de informação estava a ser demais, pelo que saí para espairecer e tentar tomar uma decisão.
Sentia-me segura e confortável na Tasmânia. Hobart e, mais ainda, Launceston eram tão tranquilas que eu nem tinha de me preocupar com a questão do distanciamento físico. E a Tasmânia ainda só tinha 10 pessoas infectadas. Mas a Austrália é uma federação e cada estado tem autonomia na gestão das suas fronteiras. Para todos os efeitos, eu estava numa ilha longe de tudo, a partir da qual nem sequer tinha acesso a voos internacionais (excepto voos ocasionais para a Antártida, o que não era útil nesta situação). No limite, se deixasse de haver ligações aéreas ou marítimas ao “continente”, eu poderia ficar retida neste estado por tempo indeterminado.
Assim, fazia sentido manter o plano de regressar ao “continente” e apanhar o voo que tinha reservado para o dia seguinte com destino a Melbourne.

Mas será que fazia sentido continuar a viagem? Eu já queria visitar a Austrália há tantos anos! A primeira vez que tinha pensado tirar um ano sabático tinha sido há dez anos, quando ainda era estudante do ensino superior. Nessa altura, optei por não interromper os estudos, mas fui mantendo sempre esta ideia na mente. E, nos anos seguintes, a minha vida profissional foi-se encadeando de um modo que me levou a pensar que não faria sentido suspender a minha carreira. Até àquele momento, em Julho de 2019, quando senti que ou era agora ou nunca.
E porque é que eu não viajei mais cedo? Porque é que adiei esta viagem ao ponto de só ter partido em Fevereiro? Estava desolada.

Mas resolvi deixar-me de dramas. Tinha de começar a tomar decisões. Uma coisa parecia certa: amanhã regressava ao “continente”. E depois, logo se veria.

Passeando polo centro de Launceston ao final do dia.

O dia em que a porca torceu o rabo

19-03-2020 – Dia do Pai!

Bom dia Launceston! Acordei estremunhada: onde estava o meu bikini? O que uma pessoa pensa durante a noite. Percebi que o tinha deixado no hostel em Hobart, tal o meu estado de nervos na véspera. Algumas horas depois, o bikini estava são e salvo, a caminho do hostel que tinha reservado em Melbourne.

Depois deste stresse matinal, esperava-me um cruzeiro pelo bonito rio Tamar. Soube-me muito bem relaxar durante umas horas. O nosso guia e timoneiro era muito informativo e divertido, o que ajudou a apreciar ainda mais as paisagens, apesar do céu nublado.

De volta a terra, almocei a refeição mais deliciosa das últimas semanas: um hambúrguer vegan que ainda hoje me faz salivar. Acabei por não apreciar plenamente a refeição, dados os desenvolvimentos da situação pandémica.

A delícia do dia!

Sabia que os autores do blog Viajar entre Viagens estavam na Nova Zelândia. Da última vez que o tinha consultado, o casal parecia estar ainda em viagem, o que me deu alguma tranquilidade. Mas, neste dia, percebi que já estavam a caminho de Portugal! Pânico! Se até eles já estavam a regressar…

Percebi que tinham criado um grupo no Instagram para portugueses no estrangeiro que pretendessem regressar a Portugal, pelo que tratei logo de criar conta nesta rede (à qual sempre tinha resistido). Entretanto, o grupo passou para o WhatsApp e eu aderi logo. Bendita internet do restaurante!
Li com atenção a torrente de mensagens deste grupo. Apesar das novidades, eu ainda não estava com vontade de interromper a minha viagem. A minha única mensagem para o grupo nesse dia foi a perguntar se mais alguém estava ainda a pensar ficar pelo estrangeiro.
Entretanto, a minha irmã pôs-me em contacto com um casal de amigos que estavam a fazer uma volta ao mundo e tinham chegado, dias antes, à Austrália. Gostei de trocar impressões com eles. Sou uma pessoa indecisa e esta foi a única altura da viagem em que desejei ter companhia, para me ajudar a decidir como proceder.

Depois de umas boas horas agarrada ao telemóvel e ainda indecisa, senti que tinha de aproveitar o resto do dia. Segui para o Cataract Gorge Reserve, um parque muito bonito ainda dentro da cidade. Adorei estar no meio da natureza! Passeei muito, vi vários wallabies e pademelons e relaxei.

E tive direito a duas actividades semi-radicais: atravessar uma ponte suspensa e andar de teleférico.
A ponte foi peaners, o teleférico nem por isso. É que o Gorge Scenic Chairlift tinha um ar muito anos 50. Mas sendo a Austrália um país que parece obcecado com consequências legais de tudo e mais alguma coisa, pensei que se eles mantêm isto aberto, é porque será seguro. Apesar de não parecer! Mas sobrevivi e gostei de estar suspensa no ar.

A elegante e pouco assustadora Alexandra Suspension Bridge.
No Gorge Scenic Chairlift. Não olhes para baixo!

Mais relaxada, corri para o centro, para comprar um gorro e luvas, dos quais necessitaria no dia seguinte. O tempo que despendi no WhatsApp estava a fazer-me falta! Compras feitas, corri para o hostel, para me equipar para uma excursão nocturna.

Pouco preparei esta minha viagem, mas havia algumas coisas que eu sabia que queria fazer na Austrália. Para além de visitar a paradisíaca Rottnest Island, em Western Australia, queria ver pinguins na Tasmânia.
Fui apanhada no hostel pelo simpatiquíssimo guia e motorista David. O David foi a primeira pessoa que me perguntou se eu percebia bem inglês e que fez um esforço para falar mais devagar. Até agora, os guias com quem me cruzei sempre assumiram que todos os visitantes eram fluentes em inglês. Em boa verdade, na maioria das excursões em que participei, os viajantes eram australianos ou provenientes de um país anglófono. Seja como for, apreciei o cuidado do David.

Seguimos para o norte da Tasmânia, para a vila de Low Head. Durante a viagem, o David explicou-nos que esta seria uma das últimas excursões da temporada, dado que tinha vindo a receber numerosos pedidos de cancelamento e tendo em conta o plano do governo estadual de impor um período de isolamento de 14 dias a todos quantos chegassem à Tasmânia a partir de sábado.

Chegados a Low Head, aguardámos pelo pôr-do-sol para nos dirigirmos para a praia. Explicaram-nos que os pinguins passam o dia no mar e regressam a terra apenas ao anoitecer. São criaturas de hábitos e regressam sempre à mesma praia. São também medrosos e gregários, pelo que aguardam à beira-mar antes de arriscar caminhar em direcção aos seus abrigos. Aguardam em fila e, quando começam a ficar impacientes, empurram o primeiro pinguim da fila, para que ele dê início à deslocação em terra!
E nós pudemos assistir a isso mesmo. Estes pinguins são little penguins (espécie Eudyptula minor), como aqueles que vi em cativeiro em Penguin Island, em Western Australia, e são fofíssimos!

Pôr-do-sol em Low Head.
Dois pinguins (de costas)!
Mais um pinguim (de perfil)!

Estava muito entusiasmada com esta experiência e não fiquei desiludida. Apesar de, nesta noite, ter havido poucos animais a “desaguar” nesta praia, pude ver alguns pinguins a passar mesmo ao meu lado.

Regressei a Launceston de coração cheio, mas já com a nuvem da pandemia a pairar.

G’day Lonnie!

18-03-2020

Acordei angustiada na quarta-feira dia 18. O cerco apertava-se. O Presidente da República ia declarar o estado de emergência e as fronteiras do país iriam encerrar. Achava (e estava correcta) que, sendo portuguesa e residente no país, conseguiria sempre entrar, mas não é simpático saber este tipo de notícias quando se está a meio planeta de distância. Entretanto, a minha irmã, que estava de férias na América do Sul, já tinha antecipado o seu regresso. Será que eu devia fazer o mesmo?
Se fosse imposto um confinamento na Austrália de duas a três semanas, ainda me fazia sentido ficar. Mas e se fosse mais longo? E se começasse a haver xenofobia? Eu não tenho um ar muito australiano…

Falei com uma das minhas companheiras de quarto, holandesa, que tinha decidido ficar no país. Respirei fundo e preparei a minha mala. Launceston (Lonnie para os amigos), a segunda maior cidade do estado, esperava por mim.

Entrei no autocarro e tentei relaxar e aproveitar a paisagem. Chegada a Launceston, percebi que o motorista se tinha esquecido da minha paragem. Felizmente, tratou logo de resolver a situação e até acabei por ser deixada à porta do meu alojamento (saí a ganhar).
Chegada ao hostel, não estava ninguém na recepção. Telefonei, telefonei, telefonei, sem sucesso. E lá fui eu, de malona às costas, passear pelo centro. A minha chegada a Launceston estava a ser atribulada!

O meu primeiro destino foi o posto de turismo, para perceber que atracções ainda estavam disponíveis, dada a pandemia. E levei com um balde de água fria: o município tinha decidido encerrar os museus da cidade. Assim, a minha visita estava limitada a passear pelo centro e no parque Cataract Gorge Reserve e a um eventual cruzeiro no rio.
Tentei olhar para o lado positivo da situação: será que eu queria mesmo enfiar-me em locais fechados nesta fase? Não, por isso toca a aproveitar as atracções ao ar livre!

Como era hora de almoço, sentei-me num café e conversei um pouco com o dono. Este informou-me de que a Tasmânia iria encerrar as suas fronteiras nos próximos dias e que já estava a contar ser obrigado a fechar o seu café a curto prazo.

A deliciosa tosta que ajudou a amortecer o impacto das não muito simpáticas novidades.

Apesar destas más notícias, tentei concentrar-me em aproveitar a cidade. Regressei ao hostel para deixar a mala e dar um raspanete ao recepcionista. Quando lá cheguei, deparei-me com uma autêntica personagem: ar aluado, óculos redondos, descalço, de gorro e cabelo desalinhado. Nem se lembrava de que tínhamos combinado que eu telefonaria quando chegasse! Perguntou-me logo se eu era enfermeira. Fiquei quase assustada – será que tenho cara de profissional de saúde? E que cara será essa? Será um elogio ou um insulto? Tantas perguntas!
O meu paciente inesperado tinha feito uma caminhada na natureza e tinha sido picado por uma carraça. E queria que eu a extraísse. Pus mãos à obra, ainda na recepção e de mochila às costas, e fiz a minha boa acção do dia. Devia ter pedido um desconto na tarifa do quarto!

Depois de me instalar, segui para o centro da cidade. Achei Lonnie tipicamente tasmaniana: ruas amplas, edifícios baixos e semi-deserta. Seria já por causa da pandemia? Parece que a cidade costuma ser mesmo assim.
Apesar da sensação de cidade-fantasma, gostei do que vi: arquitectura vitoriana e georgiana muito bonita, com parques e jardins por todo o lado e um rio muito amplo.

Regressei ao hostel entusiasmada para continuar a explorar a cidade no dia seguinte.

Mais um dia no paraíso

17-03-2020

Mais um dia na Tasmânia, mais uma excursão! O destino escolhido para esta terça-feira soalheira foi o Freycinet National Park, mais precisamente a Wineglass Bay, com um guia e grupo simpáticos e divertidos. Estávamos todos entusiasmados com a perspectiva de visitar este parque, mas muitas das conversas já giravam à volta da pandemia e de uma eventual antecipação do regresso a casa. Continuava a fazer-me sentido prosseguir com a viagem, mas estava interessada em perceber o que iriam os outros fazer. Uma das minhas companheiras de excursão, uma senhora holandesa mais velha e que também estava a fazer uma pausa sabática, disse algo que eu viria a ter em consideração dias mais tarde: é um desperdício de dinheiro ficar num país estrangeiro em confinamento; mais vale regressar a casa e usar esse dinheiro para viajar novamente.

Mas chega de Coronavírus! A primeira paragem foi numa bonita praia com vistas para Maria Island. Esta praia era muito apetecível, mas as temperaturas ainda estavam baixas demais para vestir o fato-de-banho.

Bonita praia na zona de Triabunna.

No meu esboço mental de viagem, tinha pensado dedicar uma semana à Tasmânia, mas já cá estava há oito dias e já tinha programa para, pelo menos, mais dois. Assim, se queria cumprir o objectivo de fazer uma ronda por todos os estados e territórios australianos, tinha de começar a tomar decisões. Cheguei a pensar visitar Maria Island e o Freycinet National Park, mas o tempo disponível não mo permitia. Fiquei muito indecisa (ambos os destinos me pareciam igualmente apetecíveis), mas o preço de cada excursão ajudou no desempate (optei pela mais cara – brincadeirinha!).

A paragem seguinte foi técnica, para comprar ostras (uma pessoa habitua-se e já não quer outra coisa).

Uma delícia!

O almoço (que foi à hora do lanche da manhã) foi no parque de merendas da bonita Coles Bay, em frente ao mar.

Energizados, estava na hora de visitar a famosa Wineglass Bay. O autocarro ficou no sopé da encosta e lá fomos nós, montanha acima, até um miradouro, o Wineglass Bay Lookout.

Estava muito calor e cheguei ao topo ensopada. Mas valeu muito a pena! Que vista linda sobre a Wineglass Bay! Disse-nos o guia que o nome desta baía poderá ter duas origens: a sua forma, que imita um copo de vinho, ou o facto de os baleeiros atracarem nesta baía, ficando as águas tingidas pelo vermelho do sangue das baleias (não é uma imagem muito bonita).

A lindíssima Wineglass Bay, vista do Wineglass Bay Lookout.

Depois de alguns minutos para recuperar o fôlego e apreciar a paisagem, tínhamos uma decisão a tomar: ou seguíamos com o guia para dois outros miradouros, que implicavam caminhadas suaves, ou descíamos os 1000 degraus que davam acesso à baía e à praia.
Mandei calar a velha que há em mim e decidi descer os degraus até à praia com duas companheiras de excursão.

A parte inicial da descida foi tranquila, com degraus confortáveis e sombra. Mas víamos as caras de quem subia: pareciam estar prestes a entregar a alma ao criador! É que a temperatura rondava os 30ºC.

Lá fomos descendo, descendo, descendo, até que chegámos à praia da lindíssima Wineglass Bay. Foi tão bom calcar esta areia branca! Depois de 20 dias sem ir ao mar (sim, eu estava a contar), lá me aventurei, pela primeira vez, no Oceano Antártico. O guia tinha-nos avisado de que a água era fria e agitada. Eu, que costumo fazer praia em Caminha, no distrito de Viana do Castelo, achei que entrar nestas águas foi peaners.

A cor deste mar!
Fotografia panorâmica (um pouco torta) da paradisíaca Wineglass Bay.

Que bem que soube este banho de água fria depois da caminhada! Estava energizada e relaxada. Mas, mais uma vez, senti que tive pouco tempo para apreciar a paisagem e a experiência. É que quem desce 1000 degraus, tem de os subir!
Ter entrado na água foi uma óptima decisão, porque arrefeci, o que me permitiu aguentar mais facilmente o esforço da subida. Mesmo assim, optei por caminhar um pouco mais devagar do que as minhas companheiras e fiz algumas pausas ao longo da subida.

Toca a subir! Os degraus foram-se tornando cada vez mais íngremes.

Chegadas ao miradouro, descemos em direcção ao parque de estacionamento.
Depois de uma paragem para gelado (merecidíssima), em Coles Bay, e regressámos a Hobart.

Coles Bay.

Assisti o pôr-do-sol na marina de Hobart com uma das minhas companheiras de excursão e passeámos por Battery Point, um dos bairros históricos da cidade.
Depois de jantar com a Peggy num simpático restaurante italiano, chichi-cama, que no dia seguinte de manhã tinha um autocarro para apanhar.

Olhó kunaaaami fresquinho!

16-03-2020

O meu último dia completo em Hobart começou com uma visita à Cascades Female Factory. Uma fábrica de mulheres? Parece, pelo nome, mas não! Era uma prisão feminina.
Inicialmente, tinha excluído esta prisão da minha lista , pois já havia visitado a Fremantle Prison e planeava ir a Port Arthur. Mas o entusiasmo com que uma viajante me falou da Cascades Female Factory levou-me a dedicar-lhe a manhã desta segunda-feira.
Valeu a pena a visita. Não tanto sob o ponto de vista arquitectónico, já que só restam ruínas da maioria dos edifícios, mas pela guia, que fez uma visita excelente e nos deu a conhecer as condições muito duras em que viviam estas mulheres e os seu filhos. Morreram lá centenas de mulheres, tão precárias eram as condições em que viviam.

Cascades Female Factory.

Depois, regressei ao centro a pé (a prisão fica fora do centro da cidade), o que me permitiu conhecer uma zona menos turística de Hobart.

O meu último almoço na capital da Tasmânia foi no restaurante do primeiro dia, um barco ancorado na marina da cidade, em Sullivan Cove. Dizem que não se deve voltar aos locais onde já se foi feliz, mas soube-me muito bem petiscar marisco enquanto olhava para o rio.

Com o estômago aconchegado, rumei novamente ao Tasmanian Museum and Art Gallery, já que tinha deixado muito por ver na minha visita anterior. Gostei muito da exposição temporária sobre os habitantes da zona oeste da ilha, que é particularmente isolada. Ouvir os relatos destes tasmanianos e ver as imagens desta região fez-me lembrar da nossa ilha das Flores, nos Açores.

Depois de comprar um agasalho para a aventura do dia, passeei por North Hobart, o bairro boémio da cidade. Gostei muito do ambiente, tranquilo (como tudo em Hobart) e cheio de estilo.

O ponto literalmente alto do dia estava a chegar. Uma das atracções a não perder quando em Hobart é o Mount Wellington, uma montanha com 1271 metros, cuja presença se sente em toda a cidade. Há várias formas de aceder ao topo da montanha e eu optei por uma das modalidades preguiçosas. Embarquei numa “excursão” para assistir ao pôr-do-sol no topo do Mount Wellington. Digo “excursão” porque o motorista não parecia estar com vontade de ser guia.
Percebi que um outro modo preguiçoso de subida poderá estar disponível em breve: um teleférico. Mas esta solução não está isenta de contestação: várias casas fora do centro da cidade tinham afixados cartazes a manifestar a sua insatisfação em relação a esta empreitada.

Antes da chegada dos colonos europeus, a Austrália era (e ainda é, embora em menor extensão) habitada por dezenas de povos aborígenes. Actualmente, vários locais têm dois nomes, em inglês e na língua aborígene local. O nome original do Mount Wellington é kunanyi mas, para mim, será sempre o “kunami”, graças a esta rábula dos Gato Fedorento.

Como o tempo na Tasmânia é muito instável, monitorizei as previsões ao longo de vários dias, no sentido de perceber qual o melhor dia para subir à montanha. Com efeito, é frequente o Mount Wellington estar coberto por um chapéu de nuvens, o que prejudica a experiência. Contou-me um casal canadiano que, dias antes, o nevoeiro era tão cerrado que não se via um palmo à frente do nariz!
Esta dia pareceu-me ser a minha melhor aposta. Durante a subida, tudo sobre rodas. Já se conseguia ver Hobart a ficar cada vez mais pequena. Chegados ao topo, que vista incrível! Conseguia-se ver, num raio de vários quilómetros, a cidade e seus arredores e o rio Derwent. Lindo!

Mas o que é bom não dura sempre. Rapidamente, instalou-se um nevoeiro espesso. Assim, só consegui ver mais ou menos o pôr-do-sol sobre o Mount Wellington. Mas adorei a paisagem, tão selvagem e árida, em que parecia que as nuvens e o nevoeiro brotavam da terra!

Depois do pôr-do-sol, o nevoeiro começou a dissipar-se.

Como bónus, durante a estada no topo da montanha, vi dois wallabies, primos dos cangurus. O que me intrigou, pois tenho visto wallabies em locais quentes e lá em cima estava mesmo frio.

Enregelada mas de coração cheio, regressei a Hobart e ao meu hostel. Mal eu sabia que esta tinha sido a minha última segunda-feira na Austrália.

Port Arthur

15-03-2020

Mais um dia, mais uma excursão! O meu domingo foi dedicado a explorar o Port Arthur Historic Site (Port Arthur para os amigos), uma das colónias penais mais temidas da Austrália.
Nos séculos XVIII e XIX, milhares de britânicos e irlandeses foram enviados para a Austrália, para cumprir as suas penas de prisão. Ao contrário da Fremantle Prison, Port Arthur era uma colónia, tendo chegado a albergar mais de 2000 pessoas, entre prisioneiros, militares, funcionários civis e respectivas famílias.
Port Arthur (e a Fremantle Prison) é um dos onze Australian Convict Sites World Heritage Property classificados pela UNESCO em 2010.

Mas, first things first. A primeira paragem do dia foi em Richmond, uma vila pitoresca conhecida pelo seu centro histórico bem preservado e pela Richmond Bridge, a ponte rodoviária mais antiga da Austrália. A paragem foi muito curta, só mesmo para apreciar e fotografar a ponte. Tive pena por não ter sido possível caminhar um pouco pelo centro.

A bonita Richmond Bridge, em Richmond.

A paragem seguinte foi em Dunalley, na transição para a Forestier Peninsula. Pudemos ver o Denison Canal, um atalho usado pelos velejadores da regata anual Sydney to Hobart Yacht Race no regresso à Austrália continental.

Denison Canal, em Dunalley.

A última paragem antes de chegarmos a Port Arthur foi no Eaglehawk Neck, o estreito que liga a Forestier Peninsula à Tasman Peninsula.

Tasman Peninsula à vista!

Chegados ao Port Arthur Historic Site, tivemos direito a uma visita guiada introdutória. O complexo impressiona pelas suas dimensões: cerca de 30 edifícios ou ruínas espalhados por 40 hectares de terreno! E a paisagem é muito bonita: verdejante e junto a uma enseada, a Carnarvon Bay.

A bonita Carnarvon Bay, em Port Arthur.

Esta colónia tinha duas zonas distintas: as secções em que viviam e trabalhavam (como parte da sua pena) os prisioneiros e as áreas em que se movimentavam os funcionários e as suas famílias. Estes levavam uma vida normal, com idas à escola, passeios no parque, serões literários, festas, etc.

Comecei por explorar a secção do complexo onde moravam os funcionários e as suas famílias que é, propositadamente, uma reprodução de uma vila inglesa do século XIX, para que os funcionários se sentissem mais integrados e em casa!

Moradia de estilo inglês na área civil de Port Arthur.

Num dos espaços museológicos, está em exposição um tijolo levado para casa por um visitante como souvenir nos anos 70. O tijolo foi devolvido anos depois pela esposa do turista mãozinhas, acompanhado por um envergonhado pedido de desculpa!

O bilhete de entrada em Port Arthur também inclui um passeio de barco pela Carnarvon Bay, que permite observar o complexo de uma outra perspectiva. Durante a viagem, passámos junto à Isle of the Dead, a ilhota que servia de cemitério tanto para os prisioneiros como para os funcionários e seus familiares, e a Point Puer Boys’ Prison. Sim, as autoridades britânicas chegaram a enviar crianças e adolescentes para cumprir penas de prisão na Austrália!

A prisão principal de Port Arthur e alguns edifícios de apoio vistos do barco.

Depois do passeio de barco, almocei, finalmente, uma empada de vieiras. Tinha feito uma lista mental de iguarias a provar durante a minha estadia na Tasmânia e esta era uma das que me faltavam. Não desiludiu!

Dediquei o tempo que me restava em Port Arthur a visitar o estabelecimento prisional principal, o asilo para os prisioneiros com doença mental e a prisão solitária. Todos edifícios impressionantes. E, pouco depois, já andava o nosso motorista / guia à minha procura, para nos irmos embora. Estas excursões tasmanianas são mesmo curtas!

Tinha hesitado em visitar Port Arthur, por já ter visitado a Fremantle Prison e não ser uma aficionada deste tipo de museu, mas fiz bem em contrariar o meu instinto inicial.

De regresso a Hobart, o cerco da pandemia começava a apertar-se. Quem chegasse à Austrália a partir do dia seguinte, seria obrigado a manter-se em isolamento durante 14 dias. Mas eu ainda não pensava em interromper a minha viagem.

O dia em que descobri a verdade sobre os koalas

14-03-2020

Bom dia alegria! Comecei o dia com uma visita rápida ao famoso Salamanca Market, na inevitável Salamanca Place, no centro de Hobart.
Trata-se de uma feira de produtos locais, alimentares e não só. Gostei de espreitar as diferentes bancas e tive de controlar o meu consumismo e gulodice. Acho que foi a única vez em que vi tantas pessoas juntas em Hobart, o que, nesta fase inicial de pandemia, já não era muito agradável.

A minha paragem seguinte foi o Bonorong Wildlife Sanctuary, a cerca de meia hora de Hobart. Mal cheguei, corri para apanhar uma das visitas guiadas e ter o ponto alto do meu dia: fazer festas a um wombat pela primeira vez! Neste caso, a menina wombat Rhonda – adorei! Os wombat são marsupiais quadrúpedes nativos da Austrália. São herbívoros e escavam túneis, onde se refugiam. Quando se sentem ameaçados, viram o “rabo” para a ameaça, por ser uma zona com fluxo sanguíneo reduzido, logo com menor risco de sangramento e perigo de vida em caso de ataque.
Percebi que são muito afectuosos até aos 18-24 meses, quando se tornam agressivos, inclusive com os tratadores.

A seguir, levei com um balde de água fria. De acordo com o guia, os koalas são animais muito pouco inteligentes e com o cérebro do tamanho de uma noz. Limitam-se a comer e dormir.
Fiquei ambivalente. Os koalas são os meus animais australianos preferidos! Mas não gostei de saber destas suas limitações… Vou ter de rever este meu ranking! No entanto, burro ou não, continuo a querer pegar num koala ao colo.

O koala Bert – um fofo!

O resto do tempo foi passado a conhecer os outros animais do parque. Revi diabos-da-Tasmânia, equidnas e emus. Fiquei encantada com as aves deste santuário: tão bonitas e variadas! Mora em Bonorong um papagaio, o Fred, com mais de 100 anos! Mas ninguém lhe dá mais de 20.

Hello Fred!
Alguma da bicharada do Bonorong Wildlife Sanctuary.

Outro dos meus momentos preferidos do dia foi ter podido interagir novamente com cangurus! Desta vez, vi, ainda, um joey no interior do marsúpio e outro canguru juvenil a mamar!

No entanto, não me senti tão à-vontade com estes cangurus, porque comiam muito sofregamente e magoavam um pouco a mão. E houve até um que me arranhou ligeiramente com uma das suas patas. Serviu para recordar de que se trata de animais selvagens.
Por isso mesmo, fiquei surpreendida por ver alguns pais a deixar os seus filhos junto dos cangurus. A certa altura, reparei num menino, que não teria mais de 3 anos, sozinho e rodeado por cangurus maiores do que ele. O menino estava a chorar, claro. E só passados alguns (longos) segundo veio um dos pais resgatá-lo!

Quando este senhor canguru se atravessou no meu caminho, eu dei meia-volta! Aqui quem manda é ele!

De regresso a Hobart, visitei The Cenotaph, um monumento construído em honra dos combatentes da I Guerra Mundial, que também homenageia os soldados australianos que combateram em conflitos posteriores. O cenotáfio está localizado numa colina muito tranquila e com vistas bonitas para o rio Derwent e a Tasman Bridge.

O rio Derwent e a Tasman Bridge vistos a partir da colina do cenotáfio.

Depois, dediquei o resto da tarde a planear os meus próximos passos na Tasmânia. Peguei nos quilos de folhetos turísticos que havia recolhido e instalei-me num café giríssimo em Salamanca Square (where else?) que a guia do free walking tour havia recomendado.

A minha companhia durante a preparação dos próximos dias. Já disse que sou gulosa?

Entretanto, recebi uma má notícia – a excursão que havia reservado para o dia seguinte foi cancelada por não ter sido atingido o número mínimo de participantes. A pandemia começava a fazer efeito no turismo da Tasmânia. Felizmente, consegui fazer nova reserva para o dia seguinte com uma outra empresa.
Nesta fase, sentia-me muito segura na Austrália e ainda não me passava pela cabeça antecipar o meu regresso a casa.

Por outro lado, já estava na Tasmânia há quase uma semana e ainda faltava tanto para ver! Tinha planeado dedicar apenas uma semana a esta ilha, mas estava a sentir-me tão confortável em Hobart, que adiei por mais uns dias o meu regresso ao continente.

Olha, deu-me na MONA!

13-03-2020 – Sexta-feira 13! Bu!

A Tasmânia é conhecida pelo seu tempo instável. Será o equivalente australiano dos nossos Açores. Assim, a um dia de Verão, seguiu-se um dia de Outono em Hobart.

Uma das atracções mais conhecidas e controversas de Hobart é o MONA, o Museum of Old and New Art, que será o maior museu privado do hemisfério sul. Tinham-me dito que ou se adora ou se detesta este museu.
O MONA pertence e foi fundado por David Walsh, uma personagem peculiar – terá feito fortuna com jogo a dinheiro e parece ter um sentido de humor apurado.

Visitar este museu é toda uma experiência! Que começa nos folhetos, com um design impecável e cheios de humor. Durante esta viagem, tentei contrariar o meu hábito de guardar folhetos turísticos, para diminuir o peso da bagagem e ser mais amiga do ambiente. Mas tive de abrir uma excepção para um dos folheto do MONA.

Depois, como o MONA está localizado 11 km a norte do centro da cidade, o próprio museu disponibiliza um serviço de ferry. Mais uma vez, esta viagem é uma experiência em si mesma. Os catamarãs têm zona VIP (mas eu fui para a zona dos pobres), um café com óptimo aspecto, paredes pintadas com graffiti e uma decoração peculiar – sentei-me no piso superior, nuns bancos em forma de ovelha! Mais ou menos confortáveis, mas seguramente originais.

A viagem de barco ao longo do rio Derwent é bonita e o MONA está muito bem integrado na paisagem. O átrio do museu é luminoso, mas a visita começa numa sala subterrânea a meia-luz, que tem um bar chiquíssimo. A primeira provocação, ainda no bar, é um misto de slot machine e máquina de vending. O jogador / comprador insere o dinheiro e terá acesso a uma cerveja. Mas não tem direito a escolher qual. Estão à venda sete tipos de cerveja da cervejaria do museu (*) e uma oitava cerveja corrente que está à temperatura ambiente!

(*) Sim, o complexo do MONA inclui, para além de um museu, uma série de restaurantes, bares, um hotel, uma adega e uma cervejaria artesanal!

As cervejas disponíveis na Moo Brew Roulette no peculiar MONA. A “fava” é a primeira lata.

Neste museu, as obras não têm legendas. O museu coloca à disposição dos visitantes telemóveis com geolocalizador, que indicam os nomes das obras mais próximas. Clicando no nome ou fotografia da obra, tem-se acesso a mais informação sobre a mesma. Estes telemóveis têm nome próprio, tal como muitas outras coisas neste museu: são os “O”.

Pode-se classificar cada obra nas categorias “love”ou “hate“. Parece que o plano original era retirar da exposição as obras mais apreciadas pelos visitantes! Mas, pelos vistos, essas também costumavam ser as mais detestadas, pelo que este plano foi abandonado.

Quem queira saber mais sobre a obra em questão, deve clicar em “art wank“. Wank é calão inglês; acho que o ícone é auto-explicativo.

Inicialmente, não estava a conseguir aproveitar plenamente a experiência. Talvez pelo facto de a maioria das salas estar na penumbra, estarem muitas pessoas no museu (todos os turistas estavam a fugir da chuva e eu já andava em modo pandemia a fugir de ajuntamentos), haver obras em todo o lado e ter sentido que o museu, pelas suas áreas enormes, pé direito altíssimo e organização labiríntica, era esmagador.
Mas, ao longo do dia, adaptei-me a este museu tão peculiar e gostei muito da experiência.

Gostei de várias obras, por motivos diferentes: algumas por serem interessantes, outras intrigantes e outras a roçar o repulsivo. Vejam por vocês.

Acho que esta instalação diz muito sobre a forma de estar de David Walsh, o fundador do MONA. Este museu exibe, maioritariamente, arte contemporânea e moderna, mas também inclui alguns artefactos egípicios cuidadosamente resguardados.

Esta instalação é um aquário, no interior do qual estão uma série de artefactos, o que me intrigou. A água não degradará os artefactos?
(Sei que a foto não ficou grande coisa. Os quadros que se vêem não pertencem a esta instalação; estavam afixados numa parede atrás do aquário.)

Recorri ao meu fiel “O” que me contou que, ao longo da sua carreira de coleccionador de arte, David Walsh comprou muitos gatos por lebre. Esta instalação é uma homenagem a quem o enganou e a estes seus erros de avaliação.

Adorei a capacidade este magnata de troçar de si próprio de modo tão público!

Quando, mais acima, falei em obras de arte a roçar o repulsivo, referia-me a esta fotografia. À primeira vista, parece uma bonita flor, certo?

Errado! É caso para dizer: Ceci n’est pas une fleur.

Querem saber quais os materiais usados para compor esta “flor”? Cascas de caranguejo e… prepúcio de porco! As cascas fazem de pétalas e o prepúcio está no centro. Blerk!

Deixo agora outras fotografias, para retirar dos vossos cérebros a imagem desta “flor”.

Dizem que se adora ou detesta o MONA. Eu adorei! Apesar do prepúcio de porco.

Bruny Island a correr

12-03-2020

Estava na hora da minha primeira excursão na Tasmânia. O destino eleito foi Bruny Island, uma ilha, ao largo da ilha, ao largo da ilha (não é gralha! Bruny / Tasmânia / Austrália), conhecida pelos seus produtos gourmet e paisagens selvagens.

Madruguei e tive a primeira surpresa do dia: tinha escolhido uma excursão geriátrica! À primeira vista, a maioria dos meus companheiros de viagem parecia ter bem mais de 70 anos. Mas era tudo gente com espírito jovem. Segunda surpresa: o Corona começava a estar nas mentes dos tasmanianos. O nosso guia e motorista, o Rob, pediu-nos que, sempre que entrássemos no autocarro, aplicássemos um produto desinfectante nas mãos.

A primeira paragem foi em Kettering, ainda na ilha “principal”. A marina de Kettering é muito bonita, tal como a viagem de ferry, de cerca de 15 minutos.

A soalheira marina de Kettering.

Já em Bruny Island, tivemos direito a um piquenique de ostras, pão e queijos locais – isto, sim, é vida!

Merenda matinal gourmet. Escusado será dizer que desapareceu rápido.

De seguida, rumámos ao sul da ilha, para visitar o farol. Que paisagem bonita e selvagem!

A paragem seguinte foi para almoço. Comi misto de peixe, mas não fiquei convencida. Acho que tinha as expectativas demasiado elevadas. Não é qualquer prato de peixe que encanta um português!

A sobremesa foi numa fábrica de chocolate, com uma mini-degustação de fudge. Achei o fudge demasiado doce, pelo que comprei honeycomb, uns chocolates recheados com caramelo e mel que serão típicos de Bruny Island, o motivo único e exclusivo pelo qual os comprei – juro!

Sentido de humor australiano em plena crise de papel higiénico.

De seguida, demos um mini-salto à lindíssima Adventure Bay. Tive mesmo pena por ter sido tão de fugida e pelo facto de o Senhor Sol não estar a colaborar.

Fotografia panorâmica (um pouco torta) da bonita Adventure Bay.

Depois, parámos no The Neck Lookout, sobre o estreito de terra que liga as regiões Norte e Sul da ilha. Que paisagem incrível! Se isto é lindo com nuvens, nem consigo imaginar como será com sol.

Vista panorâmica a partir do bonito The Neck Lookout.

A última paragem da excursão foi numa loja de mel. Mais uma vez, comi gelado de mel única e exclusivamente por ser típico – eu nem sou nada gulosa ou doceira! [Diz a escriba enquanto pisca um dos olhos à la José Rodrigues dos Santos.]

Durante o caminho de regresso a Hobart, o sol começou a brilhar. A sério, agora? E, quando chegámos a Hobart, parecia Verão!

Gostei muito de Bruny Island, mas não gostei desta excursão – muitas paragens comerciais e muito pouco tempo em cada paragem.

Dado que tinha passado a maior parte do dia sentada, inscrevi-me em mais uma das actividades sociais do meu hostel, o Platypus Walk & Talk, com a Sarah. A Sarah adora ornitorrincos e já descobriu alguns no Hobart Rivulet, um ribeiro na zona oeste da cidade. Lá seguimos nós junto ao ribeiro, sem sucesso. Mas valeu a pena pelo convívio e pelo passeio no simpático Hobart Rivulet Park. Demos meia-volta na histórica fábrica de cerveja Cascade e, durante o regresso ao centro da cidade, vi, pela primeira vez, pademelons, marsupiais aparentados dos cangurus!
Os ornitorrincos terão de ficar para outra ocasião.

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