18-03-2020
Acordei angustiada na quarta-feira dia 18. O cerco apertava-se. O Presidente da República ia declarar o estado de emergência e as fronteiras do país iriam encerrar. Achava (e estava correcta) que, sendo portuguesa e residente no país, conseguiria sempre entrar, mas não é simpático saber este tipo de notícias quando se está a meio planeta de distância. Entretanto, a minha irmã, que estava de férias na América do Sul, já tinha antecipado o seu regresso. Será que eu devia fazer o mesmo?
Se fosse imposto um confinamento na Austrália de duas a três semanas, ainda me fazia sentido ficar. Mas e se fosse mais longo? E se começasse a haver xenofobia? Eu não tenho um ar muito australiano…
Falei com uma das minhas companheiras de quarto, holandesa, que tinha decidido ficar no país. Respirei fundo e preparei a minha mala. Launceston (Lonnie para os amigos), a segunda maior cidade do estado, esperava por mim.
Entrei no autocarro e tentei relaxar e aproveitar a paisagem. Chegada a Launceston, percebi que o motorista se tinha esquecido da minha paragem. Felizmente, tratou logo de resolver a situação e até acabei por ser deixada à porta do meu alojamento (saí a ganhar).
Chegada ao hostel, não estava ninguém na recepção. Telefonei, telefonei, telefonei, sem sucesso. E lá fui eu, de malona às costas, passear pelo centro. A minha chegada a Launceston estava a ser atribulada!
O meu primeiro destino foi o posto de turismo, para perceber que atracções ainda estavam disponíveis, dada a pandemia. E levei com um balde de água fria: o município tinha decidido encerrar os museus da cidade. Assim, a minha visita estava limitada a passear pelo centro e no parque Cataract Gorge Reserve e a um eventual cruzeiro no rio.
Tentei olhar para o lado positivo da situação: será que eu queria mesmo enfiar-me em locais fechados nesta fase? Não, por isso toca a aproveitar as atracções ao ar livre!
Como era hora de almoço, sentei-me num café e conversei um pouco com o dono. Este informou-me de que a Tasmânia iria encerrar as suas fronteiras nos próximos dias e que já estava a contar ser obrigado a fechar o seu café a curto prazo.

Apesar destas más notícias, tentei concentrar-me em aproveitar a cidade. Regressei ao hostel para deixar a mala e dar um raspanete ao recepcionista. Quando lá cheguei, deparei-me com uma autêntica personagem: ar aluado, óculos redondos, descalço, de gorro e cabelo desalinhado. Nem se lembrava de que tínhamos combinado que eu telefonaria quando chegasse! Perguntou-me logo se eu era enfermeira. Fiquei quase assustada – será que tenho cara de profissional de saúde? E que cara será essa? Será um elogio ou um insulto? Tantas perguntas!
O meu paciente inesperado tinha feito uma caminhada na natureza e tinha sido picado por uma carraça. E queria que eu a extraísse. Pus mãos à obra, ainda na recepção e de mochila às costas, e fiz a minha boa acção do dia. Devia ter pedido um desconto na tarifa do quarto!
Depois de me instalar, segui para o centro da cidade. Achei Lonnie tipicamente tasmaniana: ruas amplas, edifícios baixos e semi-deserta. Seria já por causa da pandemia? Parece que a cidade costuma ser mesmo assim.
Apesar da sensação de cidade-fantasma, gostei do que vi: arquitectura vitoriana e georgiana muito bonita, com parques e jardins por todo o lado e um rio muito amplo.

Igreja secularizada 
O elegante Brisbane Hotel 
Loja tradicional 
Igreja encerrada 

No jardim do Queen Victoria Museum and Art Gallery

Mais um dos típicos edifícios de canto que fui vendo na Austrália 
Frase do dia 

Rio North Esk 

No jardim do Queen Victoria Museum and Art Gallery 
A elegante alfândega 
A imponente câmara municipal 
E o fofo tribunal 

Rio Tamar 
Escola secundária
Regressei ao hostel entusiasmada para continuar a explorar a cidade no dia seguinte.

