16-03-2020
O meu último dia completo em Hobart começou com uma visita à Cascades Female Factory. Uma fábrica de mulheres? Parece, pelo nome, mas não! Era uma prisão feminina.
Inicialmente, tinha excluído esta prisão da minha lista , pois já havia visitado a Fremantle Prison e planeava ir a Port Arthur. Mas o entusiasmo com que uma viajante me falou da Cascades Female Factory levou-me a dedicar-lhe a manhã desta segunda-feira.
Valeu a pena a visita. Não tanto sob o ponto de vista arquitectónico, já que só restam ruínas da maioria dos edifícios, mas pela guia, que fez uma visita excelente e nos deu a conhecer as condições muito duras em que viviam estas mulheres e os seu filhos. Morreram lá centenas de mulheres, tão precárias eram as condições em que viviam.

A zona onde estavam a maternidade e a creche 
Camaratas

Depois, regressei ao centro a pé (a prisão fica fora do centro da cidade), o que me permitiu conhecer uma zona menos turística de Hobart.

Uma lavandaria bem-humorada 
Arte por todo o lado 
O bonito St David’s Park

Casas típicas 
O SARS-Cov-2 a apertar o cerco
O meu último almoço na capital da Tasmânia foi no restaurante do primeiro dia, um barco ancorado na marina da cidade, em Sullivan Cove. Dizem que não se deve voltar aos locais onde já se foi feliz, mas soube-me muito bem petiscar marisco enquanto olhava para o rio.
Com o estômago aconchegado, rumei novamente ao Tasmanian Museum and Art Gallery, já que tinha deixado muito por ver na minha visita anterior. Gostei muito da exposição temporária sobre os habitantes da zona oeste da ilha, que é particularmente isolada. Ouvir os relatos destes tasmanianos e ver as imagens desta região fez-me lembrar da nossa ilha das Flores, nos Açores.
Depois de comprar um agasalho para a aventura do dia, passeei por North Hobart, o bairro boémio da cidade. Gostei muito do ambiente, tranquilo (como tudo em Hobart) e cheio de estilo.
O ponto literalmente alto do dia estava a chegar. Uma das atracções a não perder quando em Hobart é o Mount Wellington, uma montanha com 1271 metros, cuja presença se sente em toda a cidade. Há várias formas de aceder ao topo da montanha e eu optei por uma das modalidades preguiçosas. Embarquei numa “excursão” para assistir ao pôr-do-sol no topo do Mount Wellington. Digo “excursão” porque o motorista não parecia estar com vontade de ser guia.
Percebi que um outro modo preguiçoso de subida poderá estar disponível em breve: um teleférico. Mas esta solução não está isenta de contestação: várias casas fora do centro da cidade tinham afixados cartazes a manifestar a sua insatisfação em relação a esta empreitada.
Antes da chegada dos colonos europeus, a Austrália era (e ainda é, embora em menor extensão) habitada por dezenas de povos aborígenes. Actualmente, vários locais têm dois nomes, em inglês e na língua aborígene local. O nome original do Mount Wellington é kunanyi mas, para mim, será sempre o “kunami”, graças a esta rábula dos Gato Fedorento.
Como o tempo na Tasmânia é muito instável, monitorizei as previsões ao longo de vários dias, no sentido de perceber qual o melhor dia para subir à montanha. Com efeito, é frequente o Mount Wellington estar coberto por um chapéu de nuvens, o que prejudica a experiência. Contou-me um casal canadiano que, dias antes, o nevoeiro era tão cerrado que não se via um palmo à frente do nariz!
Esta dia pareceu-me ser a minha melhor aposta. Durante a subida, tudo sobre rodas. Já se conseguia ver Hobart a ficar cada vez mais pequena. Chegados ao topo, que vista incrível! Conseguia-se ver, num raio de vários quilómetros, a cidade e seus arredores e o rio Derwent. Lindo!
Mas o que é bom não dura sempre. Rapidamente, instalou-se um nevoeiro espesso. Assim, só consegui ver mais ou menos o pôr-do-sol sobre o Mount Wellington. Mas adorei a paisagem, tão selvagem e árida, em que parecia que as nuvens e o nevoeiro brotavam da terra!

Como bónus, durante a estada no topo da montanha, vi dois wallabies, primos dos cangurus. O que me intrigou, pois tenho visto wallabies em locais quentes e lá em cima estava mesmo frio.
Enregelada mas de coração cheio, regressei a Hobart e ao meu hostel. Mal eu sabia que esta tinha sido a minha última segunda-feira na Austrália.
















